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domingo, 7 de setembro de 2014

Filho criado, trabalho redobrado

“Filho criado, trabalho redobrado.” Esse conhecido ditado popular ganha sentido quando chega a adolescência. Nessa fase, o filho já não precisa dos cuidados que os pais dedicam à criança, tão dependente. Mas, por outro lado, o que ele ganha de liberdade para viver a própria vida resulta em diversas e sérias preocupações aos pais. Temos a tendência a considerar a adolescência mais problemática para os pais do que para os filhos. É que, como eles já gozam de liberdade para sair, festejar e comemorar sempre que possível com colegas e amigos de mesma idade e estão sempre prontos a isso, parece que a vida deles é uma eterna festa. Mas vamos com calma porque não é bem assim.
Se a vida com os filhos adolescentes, que alguns teimam em considerar um fato aborrecedor, é complexa e delicada, a vida deles também o é. Na verdade, o fenômeno da adolescência, principalmente no mundo contemporâneo, é bem mais complicado de ser vivido pelos próprios jovens do que por seus pais. Vejamos dois motivos importantes.
Em primeiro lugar, deixar de ser criança é se defrontar com inúmeros problemas da vida que, antes, pareciam não existir: eles permaneciam camuflados ou ignorados porque eram da responsabilidade só dos pais. Hoje, esse quadro é mais agudo ainda, já que muitos pais escolheram tutelar integralmente a vida dos filhos por muito mais tempo.
Quando o filho, ainda na infância, enfrenta dissabores na convivência com colegas ou pena para construir relações na escola, quando se afasta das dificuldades que surgem na vida escolar -sua primeira e exclusiva responsabilidade-, quando se envolve em conflitos, comete erros, não dá conta do recado etc., os pais logo se colocam em cena. Dessa forma, poupam o filho de enfrentar seus problemas no presente, é claro, mas também passam a idéia de que eles não existem por muito mais tempo.
É bom lembrar que a escola -no ciclo fundamental- deveria ser a primeira grande batalha da vida que o filho teria de enfrentar sozinho, apenas com seus recursos, como experiência de aprender a se conhecer, a viver em comunidade e a usar seu potencial com disciplina para dar conta de dar os passos com suas próprias pernas.
Em segundo lugar, o contexto sociocultural globalizado atual, com ideais como consumo, felicidade e juventude eterna, por exemplo, compromete de largada o processo de amadurecimento típico da adolescência, que exige certa dose de solidão para a estruturação de tantas vivências e, principalmente, interlocução. E com quem os adolescentes contam para conversar?
Eles precisam, nessa época de passagem para a vida adulta, de pessoas dispostas a assumir o lugar da maturidade e da experiência com olhar crítico sobre as questões existenciais e da vida em sociedade para estabelecer com eles um diálogo interrogador. Várias pesquisas já mostraram que os jovens dão grande valor aos pais e aos professores em suas vidas. Entretanto, parece que estamos muito mais comprometidos com a juventude do que eles mesmos.
Quem leva a sério questões importantes para eles em temas como política, sexualidade, drogas, ética, depressão e suicídio, vida em família, vida escolar, violência, relações amorosas e fidelidade, racismo, trabalho etc.? Quando digo levar a sério me refiro a considerar o que eles dizem e dialogar com propriedade, e não com moralismo ou com excesso de jovialidade. E, desse mal, padecem muitos pais e professores que com eles convivem.
Os adolescentes não conseguem desfrutar da solidão necessária nessa época da vida, mas parece que se encontram sozinhos na aventura de aprender a se tornarem adultos. Bem que merecem nossa companhia, não?”

Rosely Sayão

Ser ou não ser de ninguém?

Eis a questão da geração tribalista

Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo para reclamar de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.

Beijar na boca é bom? Claro que é! Manter-se sem compromisso, viver rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas por que reclamam depois? Será que os grupos tribalistas se esqueceram da velha lição ensinada no colégio, de que "toda ação tem uma reação"? Agir como tribalista tem conseqüências, boas e ruins, como tudo na vida. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.

Embora já saibam namorar, "os tribalistas" não namoram. Ficar também é coisa do passado. A palavra de ordem hoje é "namorix". A pessoa pode ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo. Dificilmente está apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de cultivar a ilusão de que não está sozinho. Nessa nova modalidade de relacionamento, ninguém pode se queixar de nada. Caso uma das partes se ausente durante uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu - afinal, não estão namorando. Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo de cobrança?

A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais. Assim como só deseja "a cereja do bolo tribal", enxerga apenas o lado negativo das relações mais sólidas. Desconhece a delícia de assistir um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer boa noite, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar.

Já dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade que "amar se aprende amando" e se seguirmos seu raciocínio, esbarraremos na lição que nos foi transmitida nas décadas passadas: relação é sinônimo de desilusão. O número avassalador de divórcios nos últimos tempos, só veio confirmar essa tese e aqueles que se divorciaram (pais e mães dos adeptos do tribalismo) vendem (na maioria das vezes) a idéia de que casar é um péssimo negócio e que uma relação sólida é sinônimo de frustrações futuras. Talvez seja por isso que pronunciar a palavra "namoro" traga tanto medo e rejeição. No entanto, vivemos em uma época muito diferente daquela em que nossos pais viveram. Hoje podemos optar com maior liberdade e não somos mais obrigados a "comer sal junto até morrer". Não se trata de responsabilizar pais e mães, ou atribuir um significado latente aos acontecimentos vividos e assimilados na infância, pois somos responsáveis por nossas escolhas, assim como o que fazemos com as lições que nos chegam. A questão não é causal, mas quem sabe correlacional.

Podemos aprender amar se relacionando. Trocando experiências, afetos, conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os conceitos que nos foram passados. Somos livres para optar. E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento... É arriscar, pagar para ver e correr atrás da felicidade. É doar e receber, é estar disponível de alma, para que as surpresas da vida possam aparecer. É compartilhar momentos de alegria e buscar tirar proveito até mesmo das coisas ruins.
Ser de todo mundo, não ser de ninguém é o mesmo que não ter ninguém também... É não ser livre para trocar e crescer... É estar fadado ao fracasso emocional e à tão temida solidão.

Mônica Montone

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Morte/Noite



Gustav Klimt (1862-1918), pintor austríaco, em Morte e vida
mostra-nos as três idades da vida e a morte à espreita.


Conforme Epicuro, a morte não existe para os vivos, e os mortos nada podem dizer sobre ela, pois não estão mais aqui.

Já o poeta Manuel Bandeira, em "Consoada", ao comparar o dia e a noite à vida e à morte, diz que se o dia for bom, se tiver sido bem aproveitado, bem vivido, então ela pode descer. O célebre poeta ainda diz que se o campo estiver lavrado e a casa estiver limpa, só resta morrer.

É certo que a morte é indesejada e que chegará, as reações podem ser antagônicas: de temor ou/e aceitação, porém é certo que ela virá!

Me consolo ao encontrar guarida nas palavras de Heidegger, que me permitem entender que a existência autêntica supõe a aceitação da angústia e o reconhecimento de sua finitude.

Então, misturando as ideias do poeta brasileiro com as do pensador  alemão é possível uma maior elucubração no assunto...

Boa reflexão!

Mauro Feijó

sábado, 28 de junho de 2014

Paulo Freire hoje

Neste ano celebramos os 50 anos de uma experiência educacional que marcou a vida de um grande brasileiro, e que se tornou um marco da educação mundial. Trata-se da experiência de alfabetização de adultos de Paulo Freire em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963. A cidade não é apenas um símbolo da luta contra o analfabetismo, é um marco em favor da universalização da educação em todos os graus que começa na primeira infância. É bom lembrar que um dos primeiros escritos dele foi sobre a “escola primária”, que data de 1960.

Em 2012, Paulo Freire tornou-se Patrono da Educação Brasileira. Neste pequeno artigo, gostaria de fazer a defesa dessa justa homenagem, lembrando um pouco de sua trajetória, começando por Angicos.

O projeto político-pedagógico de Paulo Freire foi fundamentalmente um repensar da própria educação, em geral, e da educação pública, em particular, como uma contribuição para a constituição da democracia e da cidadania. O experimento de Angicos era apenas o primeiro passo do Programa Nacional de Alfabetização que – criado em janeiro de 1964 no governo de João Goulart e extinto pelo golpe civil-militar naquele mesmo ano – visava à eliminação do analfabetismo no Brasil. Angicos foi um projeto de cultura popular que imaginou e concebeu uma nova pedagogia e uma nova educação para uma sociedade democrática com justiça social.

Futebol e cidadania

É mais importante ser cidadão do que torcedor. Por isso é lastimável que o Brasil já tenha perdido a Copa de 2014 para ele mesmo


Que o futebol é gostoso de jogar e assistir é afirmativa com a qual deve concordar a grande maioria, talvez a totalidade, dos leitores deste artigo. Mas essa paixão pelo jogo não deve inibir o espírito crítico em relação ao uso que lhe dão muitos políticos, dirigentes e jornalistas. Por exemplo, por interesses diversos eles celebram a Copa do Mundo que vai começar no Brasil em junho e que -simplesmente – e agora o leitor talvez discorde do autor deste texto – não deveria acontecer, ou ao menos não deveria acontecer do jeito que ela foi e está sendo organizada.

Para começo de conversa, sejamos claro, ao contrário do que diz certo discurso patrioteiro, sediar a Copa do Mundo de 2014 não deve ser motivo de orgulho nacional. Depois da Copa de 2002 na Ásia (Coreia-Japão), a seguinte na Europa (Alemanha), a última na África (África do Sul), a de 2014 pelo princípio de rodízio de continentes, que foi estabelecido desde 1930, precisaria acontecer na América. Ora, nenhum -país do continente se dispôs a receber, financiar e organizar o evento. A não ser o Brasil. Por quê? Responder com a paixão nacional pelo futebol seria muito simplista.

Na verdade, confluíram os interesses políticos de dois personagens que, para pôr em prática seus projetos pessoais, manipularam o previsível entusiasmo da população. O então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, viu numa Copa bem realizada (do ponto de vista da Fifa…) o trampolim definitivo para assumir a presidência da entidade internacional nas eleições de 2015. O então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, viu na Copa dois benefícios, em termos amplos mais um instrumento do seu populismo, em termos específicos uma manobra para desviar a atenção da opinião pública e da imprensa do escândalo da compra de votos no Congresso. Não por mera coincidência, apenas dois meses depois de descoberto o chamado Mensalão, o Brasil se propôs como sede para 2014, prometendo a construção de vários novos estádios. Todos eles, garantiu então o governo, sem dinheiro público.

Filosofia e seitas: uma reflexão útil

Uma das polêmicas mais acirradas que circulam hoje sobre o significado de palavras em geral gravita em torno da palavra “seita”. Proveniente do latim sequire , "seguir", normalmente trata, em uso corrente, de ideologias divergentes da oficial e com tendência ao isolamento social. Em extremo, podem se referir a grupos que cultivam excessiva devoção e obediência a um líder, de quem são “seguidores”, com uso de técnicas de persuasão opressivas ou manipuladoras.

Como mesmo estes adjetivos são todos muito cheios de matizes, ao nos prolongarmos neste assunto, cairíamos num sem-fim de etimologias e conceitos discutíveis, mas não é este o nosso objetivo. É preciso perceber o que propõem, não as “filosofias”, pois é outro escorregadio conceito, uma vez que todo conjunto de ideias, homogêneo e coerente ou não, se intitula desta maneira, mas a Filosofia, tradicional e clássica, com a proposta que a trouxe à vida, e se isso se assemelha em alguma medida às chamadas “seitas’.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Caminho novo

Num dia desses em conversa com um colega de trabalho, trocávamos ideias sobre o seu trabalho de pesquisa de conclusão de curso. Meu colega manifestava algumas dúvidas sobre como elaborar o seu projeto de pesquisa. Ele já havia recebido algumas dicas de seu professor orientador, das quais uma delas era pesquisar numa área segura e já bem explorada no meio acadêmico, isto é, um caminho já pavimentado.

De outra banda, sugeri um caminho que fosse desconhecido, algo a ser pavimentado. Dentro dessa perspectiva, o trabalho passa a ter sentido, a pessoa ao invés de reproduzir precisará criar, terá que se movimentar para conhecer aquilo que ainda não conhece.

Se pesquisar é buscar conhecer, significar e compreender todas as nuances do problema, desde uma simples ação até algo mais sofisticado e complexo, então não tem muito sentido caminhar num chão já pavimentado por onde vários já passaram.

Pelo mistério da mente humana meu colega deverá procurar através de pesquisa, observação, vivência e situações diversas, respostas para sua inquietação acadêmica. Oxalá consiga fazer isso com aprendizagens significativas que lhe possibilitem pavimentar seu próprio chão.

Mauro Feijó


Só se dispõe a trabalhar quem aceita o contexto onde o trabalho precisa ser feito

Um desejo de qualquer trabalhador é poder executar suas funções num lugar que ofereça a ele, as condições necessárias para o seu trabalho ser bem feito. Para mais clareza exemplifico: o professor deseja trabalhar numa escola bem organizada, que lhe ofereça todas as condições para o desenvolvimento de seu trabalho. Caso a escola não tenha essas condições, então o professor não terá a motivação necessária para desenvolver o seu mister. Penso que seja mais ou menos assim que acontece em qualquer área de trabalho.

A pessoa precisa fazer um esforço sincero para assimilar à realidade onde atua, quando as suas condições de trabalho não forem as mais favoráveis. O fato do lugar em que a pessoa trabalha não oferecer as condições necessárias para um pleno desenvolvimento do seu trabalho, não determina que o mesmo não seja bem feito, senão vejamos: aceitar as condições inadequadas da realidade em que se está trabalhando ou até mesmo a falta de estrutura necessária deste lugar ajuda a pessoa a ser criativa, a pensar fora do lugar comum.

Só se dispõe a trabalhar quem aceita o trabalho proposto por aquela realidade. Senão, é melhor a pessoa ir fazer outra coisa. Portanto, aceitar a realidade como ela é e o desafio de poder modificá-la, é condição para o trabalho ser efetivamente executado. Se tal realidade estiver bem organizada e estruturada, qualquer pessoa conhecedora do trabalho a ser feito poderá executá-lo. Agora, quando a realidade estiver desordenada e sem a estrutura devida, a pessoa precisará criar novos caminhos, diferente dos caminhos habituais que todos conhecem. Nessa realidade sem estrutura, fragmentada, incompreensível no primeiro momento, está o desafio. Nessa ocasião, o trabalho terá que ser uma resposta inventada. Aceitar o desafio dessa realidade significa pensar fora do lugar comum. Não aceitar esse desafio significa não se mover da sua zona de conforto, porque como disse a dramaturga brasileira Hilda Hilst "tu não te moves de ti".

Mauro Feijó