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sábado, 13 de julho de 2013

Sensibilidade, educação e filosofia

As crianças produzem as mais puras obras da sensibilidade humana e nos orgulham com seus ingênuos e inocentes encantos. Crianças, adolescentes e jovens facilmente percebem quando um professor ou professora lhes oferece sabedoria, recheada de amor e dignidade. Sabem também reconhecer, como reconhecem seus pais, que professores trabalham duro e não são reconhecidos e nem estimulados a realizarem-se, com dignidade, no seu ofício de ensinar. Deles, somente deles, os professores recebem flores e presentes, em forma de agradecimento e reconhecimento por tudo que fazem por eles.
A sensibilidade é própria daqueles que estão de bem com a vida e se envolvem numa catarse de movimentos que geram boas percepções de vida, de ser humano e de beleza, daqueles que tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e boca para falar, serenamente. Por sua vez, quando reina a insensibilidade, esta gera auto-suficiência, arrogância e rancor, qualidades que não cativam e não agregam ninguém.
Oferecemos, todos os dias, o melhor do que somos, por amor às nossas crianças. Ofertamos a elas luzes de esperança, forjadas na cotidiana luta de superação pessoal e profissional. Se os adolescentes sonham em transformar o mundo, mostramos a eles caminhos de saudável rebeldia, arrebatadora de causas, sonhos e desejos que move a cada um e cada uma. Se jovens e adultos acreditam no poder do conhecimento, os estimulamos a fazerem suas buscas na vida pessoal e profissional, através de seus estudos.
Sensibilidades afetivas, sociais e políticas constituem um legado daqueles que escolheram ser professor ou professora. Por obra desta paixão, fazem-se compreensivos com os outros, e sofredores com eles, crentes que cada ser humano possui as mais ricas e únicas possibilidades de superar-se. Como na educação, também na política, só deveriam atuar aqueles que, acima de vaidades e interesses, sejam capazes de agregar-se na crença de que todo ser humano é capaz de superar-se em todos os seus contextos, singularidades e peculiaridades. Para isto serve a política e a educação: propiciar instrumentos às pessoas para sua liberdade e sua emancipação.
Daqueles que assumem posições de poder, espera-se que sejam abertos ao diálogo, mesmo que na dureza das críticas dos outros. Que se interessem pela coletividade, sem desfazer-se de suas motivações e convicções políticas. Que saibam avançar nas proposições, mas também recuar quando se faz necessário. Que desenvolvam habilidades capazes de justificar as intenções que desejam concretizadas na coletividade.

“Quem luta, também educa”. Quem ama, também educa. Quem não se acovarda de sua consciência, ganha mais vida na dignidade, justamente por assumir-se como é. Quem educa segue acreditando que educação não é um fim, mas meio para estimular os mais loucos desejos do ser humano: a felicidade. E não aceita o discurso desvairado que nos acusa de “torturar” nossas amadas crianças.

Nei Alberto Pies, professor e
ativista em direitos humanos

Sonho social

O sonho de conquista social pode ser o resultado direto dos desejos que se formam em um dado momento da vida. Por razões extremamente particulares, o ser humano é capaz de buscar sensações agradáveis no convívio através da realização de metas estabelecidas, as quais podem ser chamadas de sonhos. Motivos são importantes na vida de uma pessoa em razão da ocupação que demandam, permitindo que o tempo seja preenchido de alguma forma. No entanto, emerge uma pergunta fundamental: será que nos conhecemos o suficiente para definir mais adequadamente os tipos de sonho que devemos estabelecer?
Será que dispomos de suficiente autoconhecimento sobre as reais necessidades pessoais para alinhá-las aos sonhos por nós projetados? Criamos sonhos que na verdade não passam de desnecessários pesadelos (determinada carreira profissional, um dado relacionamento, posse de certos bens)? Alerta: muitos pais, ignorando o autoengano, estimulam seus filhos a perseguir o que, à luz da razão, causaria desestímulo? Mais: mesmo sob o torturante erro causado por objetivos irrefletidos, é possível manter-se crente de que é correto o caminho e persistir em tal desatino por tempo indeterminado? Quem sabe a hora de parar e rever a trajetória? Quem quer enxergar isso?
O sonho de sucesso social faz parte da nossa convivência há considerável tempo; em muitas culturas é possível localizá-lo facilmente. O sonho da glória social parece tão natural quanto necessário, haja vista ele surgir com veemência em diferentes pessoas, nas variadas classes sociais, notadamente desde a origem da civilização, além de se sofisticar gradualmente com a evolução tecnológica. No entanto, é devido questionar: se a grossa maioria das pessoas não realizou esse tipo de sonho ao longo da história, mas sobreviveu normalmente, ele é de fato essencial?
Por ventura, ao desconhecer-se, o homem não se deixa levar por impressões externas e toma para si os sonhos que nada ou pouco lhe dizem respeito, acreditando lhe pertencerem legitimamente? Na falta de tal consciência, recorre-se, inconscientemente, ao sonho alheio? Curiosamente, pode-se pensar em pesadelo coletivo quando muitos se enganam e sofrem por motivos semelhantes? Querer um estilo de vida (por mais atraente que seja) fora dos moldes particulares pode causar algum desarranjo psíquico tal como o desgastante desvio das energias que devem sustentar a imagem do sonho que em algum momento não fará mais tanto sentido e perderá a sustentação outrora convicta? A frustração pode roubar a cena conforme o grau de desalinhamento entre o que perdeu o significado e a realidade construída?
É aqui, portanto, que se deve empreender uma profunda e intensa autoavaliação a fim de reduzir o equívoco, mesmo sob o enorme trabalho que se seguirá por força da mudança que se impõe cada vez mais vigorosa conforme se avança na aquisição da libertadora consciência. Porém, quem quer se libertar da própria inconsciência? O que você quer para si: sonho ou pesadelo social?

Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um Brasil de fato brasileiro


Há muito tempo sustento a opinião de que o Brasil por ser um país jovem, ainda não formou povo, isto é, um povo originalmente brasileiro, autóctone, gente genuinamente daqui. Sendo assim, também não temos um povo com princípios nacionalistas, efetivamente cuidador e promotor das coisas brasileiras.

Me reporto ao livro Crítica da Razão Tupiniquim, de Roberto Gomes, que sustenta a opinião da não existência de pensadores e filósofos que pensem o Brasil, e acrescento, honestos e com princípios altruístas, que levem este nosso país realmente a sério, haja vista os políticos e líderes que governam a nação brasileira.

Não deixo de reconhecer que o Brasil já melhorou muito, principalmente na sua auto-afirmação no cenário internacional, que já adquiriu credibilidade suficiente para dar a cada brasileiro, esperanças de dias melhores, principalmente no que se refere às condições básicas que qualquer país precisa para prosperar, a saber: educação, saúde, segurança e salário digno. Porém, se faz necessário priorizar as necessidades das "gentes" brasileiras.

Mauro Feijó

População se manifesta contra altos investimentos para a Copa, no dia da estreia da Copa das Confederações em Fortaleza

Nesta quarta-feira (19), dia em que a cidade de Fortaleza, no Ceará, recebe sua primeira partida de futebol pela Copa das Confederações com participação da Seleção Brasileira, a população fortalezense organiza o ato "+ Pão – Circo: Copa para quem?” para protestar contra os altos gastos com as obras para a Copa do Mundo 2014, enquanto a população sofre com a falta de investimentos em áreas básicas como saúde, educação e segurança.

"Não vamos reivindicar, pois o investimento já está feito, mas mostrar ao governo que não nos calamos diante dos investimentos absurdos na Copa enquanto não temos o básico, que é educação, saúde e segurança. [vamos] Mostrar a nossa voz gritando que queremos mais pão e menos circo”, ressaltam na página do evento.

Esta semana, muitos protestos tomaram as ruas de várias cidades brasileiras com reivindicações que vão desde a redução do reajuste de tarifas de transporte público, segurança e gastos bilionários com a Copa, a população de Fortaleza promete realizar um grande ato, na estreia da Seleção e da Copa das Confederações na cidade. Até a tarde de hoje, mais de 33 mil pessoas já haviam confirmado presença na manifestação organizada através da rede social facebook.

A concentração começará às 10h no pátio do Makro localizado à Av. Alberto Craveiro, com acesso também pela BR 116, e pretende seguir até a Arena Castelão.

Os/as organizadores/as pedem que os/as participantes "zelem pela integridade de todos” e realizem um ato pacífico, sem vandalismo e nenhum tipo de agressão. Também estão dividindo comissões específicas para aqueles/as interessados/as em contribuir com segurança, comunicação, agitação e propaganda, saúde e externa que auxiliará na parte jurídica se necessário.


Impactos das obras da Copa


Em Fortaleza, a estimativa é que cerca de 5 mil famílias em mais de 20 comunidade sejam removidas para dar lugar às obras de mobilidade urbana. No entanto, elas reclamam da falta de informação e diálogo com as comunidades, baixas indenizações e sobre o modo que são implantadas as obras e são feitas as remoções.

No último dia 14, na véspera da abertura da Copa das Confederações no Brasil, a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre moradia adequada disse que os megaeventos esportivos podem ser uma oportunidade de trazer melhorias para a população das cidades-sedes dos jogos, através de investimentos em sistemas de transportes, vias urbanas e acesso à moradia, por exemplo. Mas, ela também reconheceu que no meio deste processo muitos governos promovem despejos e deslocamentos forçados, além de pagar baixas indenizações que dificultam o reassentamento dessas famílias, podendo levar ainda a criação de novos assentamentos informais em condições inadequadas que acentuarão a desigualdade e aumentarão os índices de pobreza.

Em maio, uma equipe de auditores federais fez uma visita técnica à cidade para identificar as possíveis violações de direitos humanos, como o direito ao trabalho, à moradia e ao acesso à informação, decorrentes da execução das obras de mobilidade urbana para a Copa do Mundo. Na ocasião, o auditor André Marini ressaltou que as denúncias de violações se repetem em várias cidades do país.

Adital

Copa para quem? - Mesmo com repressão policial, protesto em Fortaleza reuniu mais pessoas do que jogo Brasil x México


Cerca de 80 mil pessoas participaram ontem (20) da manifestação +Pão –Circo: Copa para quem? em Fortaleza, Ceará, para protestar contra os investimentos bilionários utilizados na construção de estádios para a Copa do Mundo (2014), enquanto a população sofre com a estrutura precária na moradia, saúde e educação. Apesar do caráter pacífico, os/as manifestantes foram recebidos de forma truculenta pela polícia militar, que impediu a todo custo que a manifestação chegasse perto da Arena Castelão, palco do jogo de estreia da Copa das Confederações na cidade, que possui 63.903 lugares.
Os relatos dos abusos cometidos pela polícia são inúmeros. Em um dos casos, um vídeo flagra o momento em que os policiais reagiram ao canto pacífico do Hino Nacional com o lançamento de bombas de gás lacrimogêneo, surpreendendo os/as manifestantes. Em outro momento, um participante, munido apenas de cartazes e que tentava dialogar com os policiais, foi algemado e detido sem motivo aparente. No total, oito pessoas foram detidas e várias ficaram feridas.

Para André Lima, integrante do Comitê Popular da Copa de Fortaleza, a ação da polícia militar já era esperada, uma vez que, segundo ele, o governador do Ceará, Cid Gomes, já vinha anunciando que "qualquer manifestação seria duramente reprimida”.

Apesar disso, André afirma que a manifestação foi "muito positiva”, já que conseguiram pautar a imprensa nacional e até internacional, e levantar questionamentos sobre a Copa e as prioridades do governo. "Conseguimos nos manifestar numa situação totalmente adversa. Superou totalmente as expectativas”, comentou.



Ele ressaltou que o objetivo da manifestação é "fazer com que o governo ouça nossas reivindicações sobre a questão da Copa, remoções de famílias para a construção da linha do Veículo leve sobre trilhos (VLT) e gastos públicos exorbitantes para a Copa que deixam sem recursos para educação e saúde”. André comentou que a tendência é aumentar também a resistência para a construção do Acquário do Ceará, projeto que prevê investimento milionário para um aquário com fins de atrair turistas.

Vem pra rua

Com cara pintada, os/as manifestantes, em sua maioria jovens, constantemente entoavam o brado "Vemprarua" e incitavam a população a se juntar aos protestos que visam mudar o Brasil.

Milhares de cartazes com dizeres como "Enquanto a bola rola falta saúde, falta escola”, "Vandalismo é a seca no Nordeste, é a fome, é a corrupção” e "Saúde e educação padrão Fifa” davam o claro recado aos governantes que a população exige mais investimento em áreas básicas, assim como são feitos investimentos em estádios de futebol. O fim da corrupção também foi outro tema dos protestos.
Adital

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ser radicalmente pobre para ser plenamente irmão




Imagem: caminho-franciscano.

Uma das primeiras palavras do Papa Francisco foi: "gostaria de uma Igreja pobre para os pobres”. Este desiderato está na linha do espírito de São Francisco, chamado de Poverello, o Pobrezinho de Assis. Ele não pretendeu gestar uma Igreja pobre para os pobres, pois isso seria irrealizável dentro do regime de cristandade, onde a Igreja detinha todo o poder. Mas criou ao seu redor um movimento e uma comunidade de pobres com os pobres e como os pobres.

Em termos de extração de classe, Francisco pertencia à afluente burguesia local. Seu pai era um rico mercador de tecidos. Como jovem liderava um grupo de amigos boêmios –jeunesse doré- que viviam em festas e cantando os jograis do Sul da França. Já adulto, passou por uma forte crise existencial. De dentro desta crise irrompeu nele uma inexplicável misericórdia e amor pelos pobres, especialmente, pelos hansenianos, incomunicáveis, fora da cidade. Largou a família e os negócios, assumiu a radical pobreza evangélica e foi morar com os hansenianos. O Jesus pobre e crucificado e os pobres reais foram os móveis de sua mudança de vida. Passou dois anos em orações e penitências, até que interiormente ouviu um chamado do Crucificado: "Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas”.

Custou a entender que não se tratava de algo material; mas, de uma missão espiritual. Saiu pelos caminhos pregando nos burgos o evangelho em língua popular. Mas o faz com tanta jovialidade, "grazie” e força de convencimento que fascinou alguns de seus antigos companheiros. Em 1209 conseguiu do Papa Inocêncio III a aprovação de sua "loucura” evangélica. Começou o movimento franciscano que em menos de vinte anos chegou a mais de cinco mil seguidores.

Quatro eixos estruturam o movimento: o amor apaixonado ao Cristo crucificado, o amor terno e fraterno para com os pobres, a "senhora dama” pobreza, a genuína simplicidade e a grande humildade.

Deixando de lado os outros eixos, tentemos compreender como Francisco via e convivia com os pobres. Nada fez para os pobres (algum lazareto ou obra assistencial); muito fez com os pobres, pois os incluía na pregação do evangelho e onde podia estava junto deles; mas fez mais: viveu como os pobres. Assumiu sua vida, seus costumes, beijava-os, limpava suas feridas e comia com eles. Fez-se um pobre entre os pobres. E se encontrasse alguém mais pobre que ele, dava-lhe parte de sua roupa para ser realmente o mais pobre dos pobres.

A pobreza não consiste em não ter, mas na capacidade de dar e mais uma vez dar até se expropriar de tudo. Não é um caminho ascético. Mas a mediação para uma excelência incomparável: a identificação com o Cristo pobre e com os pobres com os quais estabeleceu uma relação de fraternidade.

Francisco havia intuído que as posses se colocam entre as pessoas, impedindo o olho no olho e o coração com o coração. São os interesses, o que fica entre (inter-esse) as pessoas, que criam obstáculos à fraternidade. A pobreza é o permanente esforço de remover as posses e os interesses de qualquer tipo, para que daí resulte a verdadeira fraternidade. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o projeto de Francisco; daí a importância da radical pobreza.

Convenhamos que a pobreza assim extrema era pesada e dura. Ninguém vive só de mística. A existência no corpo e no mundo coloca exigências que não podem ser contrafeitas. Como humanizar esta desumanização real que comporta este tipo de pobreza? As fontes da época testemunham que os frades pareciam "silvestres homines (uns selvagens) que comiam pouquíssimo, andavam descalços e se vestiam com as piores roupas”. Mas, por espanto dizem, nunca perdiam a jovialidade e a acolhida de todos.

É neste contexto de extrema pobreza que Francisco valorizou a fraternidade. A pobreza de cada um era um desafio para o outro cuidar dele e buscar-lhe, pela esmola ou pelo trabalho, o mínimo necessário, dando-lhe abrigo e segurança. Com isso o ter é desbancado em sua pretensão de conferir segurança e humanização. Francisco queria que cada frade se comportasse como uma mãe para com o outro, pois as mães sabem cuidar, especialmente, dos doentes. Só o cuidado recíproco humaniza a existência como bem o mostrou M. Heidegger em seu Ser e Tempo. Para quem vivia totalmente desprotegido, a fraternidade significava efetivamente tudo. O biógrafo Tomás de Celano descreve a jovialidade e alegria no meio da rude pobreza. Assinala: "cheios de saudade procuravam encontrar-se; felizes eram quando podiam estar juntos; a separação era dolorosa, amarga a partida, triste a separação”. O despojamento total os abria para o desfrute das belezas do mundo, pois não as queriam possuir, apenas admirar e saborear.

São muitas as lições que se poderiam tirar desta aventura espiritual. Fiquemos apenas com uma: para Francisco as relações humanas devem se construir sempre a partir dos que não são e não tem na visão dos poderosos. Devem ser abraçados como irmãos. Só uma fraternidade que vem de baixo e que a partir dai engloba os demais, é verdadeiramente humana e tem sustentabilidade. A Igreja, como a temos hoje, nunca será como os pobres. Mas pode ser para e com os pobres como o sonha o Papa Francisco.

De todos os modos a existência de pobres constitui um desafio permanente para todos os que se comovem com as limitações que a pobreza comporta e que se empenham para criar condições reais para que se construa uma sociedade na qual não haja pobres; mas, que todos tenham o suficiente e decente para viver. Com se dizia nos Atos dos Apóstolos: "ninguém considerava sua a propriedade que possuía; tudo entre eles era comum; e não havia pobres entre eles” (At 4, 32.34). Era o comunismo primitivo de base ética e espiritual que sempre serviu de inspiração ao largo de toda a história, também para os dois Franciscos, o de Assis e o de Roma.

Leonardo Boff

domingo, 9 de junho de 2013

Supermercados de diplomas




Muito tem se falado nos últimos anos sobre a mercantilização da educação superior no Brasil, resultante, segundo Morais, da devastação intelectual e dos regimes discricionários que só criaram até agora uma pseudodemocracia (MORAIS, 2011, p. 24). Essa mercantilização, segundo o autor apenas citado, seria uma espécie de nova barbárie, uma vez que despreza por completo o mais precioso capital humano, a inteligência (Ibid.,p. 30).

1. A mercantilização da educação

Porém, quando falamos de "mercantilização da educação” no Brasil não devemos pensar apenas naquelas "faculóides” que oferecem cursos a R$ 1,99, sem se importar com o futuro que estão preparando para o país. Esse tipo de instituição de ensino superior (IES) é um mero "supermercado de diplomas” (Ibid., p. 70) que vende, no senso mais estrito da palavra, certificados e históricos escolares, e se mantêm funcionando porque as disposições legais que regema educaçãosuperior no Brasil não são cumpridas e essas instituições não são seriamente fiscalizadas.

A mercantilização da educação superior pode acontecer também em instituições que, se declarando sérias, vão, aos poucos, deixando-se seduzir pelos atrativos do mercado. Pressionadas pela lei da concorrência, essas instituições deixam de lado os objetivos da missão e a ética e terminam por ceder às imposições do mercado. E isso acontece porque os atuais discursos e práticas ideológicas neoliberais permeiam tudo, inclusive ajudando a dissimular a realidade:

A ideologia caracteriza-se por dissimular a realidade, apresentando como "naturais” elementos que na verdade são determinados pelas relações econômicas de produção, por interesses da classe economicamente dominante [...]. O discurso liberal permeia, entre nós, as propostas oficiais e muitas das concepções dos próprios educadores [...]. Essa tendência expressa uma visão da instituição escolar que chamaríamos de otimista e ingênua. Ela a vê como algo fora da dinâmica social, como impulsionadora desta dinâmica e acredita que, sendo espaço privilegiado de transmissão de cultura, a escola "dá o tom” à sociedade (RIOS, 2007, p. 35-36).

Tem razão Rios, uma vez que quem "dá o tom” é a visão neoliberal que tem no mercado o seu foco. Tudo vira mercadoria a ser vendida e negociada, inclusive a educação. E neste contexto as decisões não ficam por conta dos que fazem e dos que agem. Elas são tomadas pelos que investem:

[...] os empregados, os fornecedores e os porta-vozes da comunidade não tem voz nas decisões que os investidores podem tomar; e que os verdadeiros tomadores de decisão, as "pessoas que investem”, têm o direito de descartar, de declarar irrelevante e inválido qualquer postulado que os demais possam fazer sobre a maneira como elas dirigem a companhia (BAUMAN, 1999, p. 13).

E de que maneira as IES, inclusive as públicas, cedem a essa pressão do sistema neoliberal? De várias maneiras, eu responderia. De um modo geral as IES continuam com um discurso bonito, defendendo princípios éticos e de uma educação de qualidade, voltada para a construção de um país justo e solidário. Na prática, porém, a teoria é outra.

Maioridade penal: omissão e distorção na mídia




Quem acompanha diariamente as notícias na mídia sobre atos de violência cometidos por adolescentes tem a sensação de que os jovens brasileiros são os autores da maioria dos crimes graves no país. A mídia tem sido muito eficiente em provocar uma quase-histeria na opinião pública, para tentar legitimar mudanças nas leis do país. A principal delas seria a redução da maioridade penal para 16 anos. Comentaristas de TV e de emissoras de rádio –principalmente– têm sido pródigos em vociferar argumentos equivocados, de forte apelo emocional, na tentativa de imputar aos adolescentes infratores uma violência muito maior do que de fato ocorre. Jornalistas e radialistas mal informados (na melhor das hipóteses) ou irresponsáveis e inconsequentes, e, neste caso, pouco éticos –com a conivência dos proprietários– usam os meios de comunicação para difundir preconceito e discriminação.

Argumentos falsos não resistem à informação correta. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), os adolescentes brasileiros são responsáveis por 3,8% dos homicídios. Ou seja, uma quantidade muito pequena diante da gritaria geral para sustentar a redução da maioridade como a grande solução para a diminuição da criminalidade no país. A quem se quer enganar com tão tosca solução, que se provará tão inútil quanto tantas outras que não combatem a raiz do problema? A maioria dos crimes cometidos por menores de idade que cumprem medida socioeducativa são crimes de roubo e furto (43,7%) e de tráfico de drogas (26,6%), conforme dados de 2011 do Ministério da Justiça.