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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um Brasil de fato brasileiro


Há muito tempo sustento a opinião de que o Brasil por ser um país jovem, ainda não formou povo, isto é, um povo originalmente brasileiro, autóctone, gente genuinamente daqui. Sendo assim, também não temos um povo com princípios nacionalistas, efetivamente cuidador e promotor das coisas brasileiras.

Me reporto ao livro Crítica da Razão Tupiniquim, de Roberto Gomes, que sustenta a opinião da não existência de pensadores e filósofos que pensem o Brasil, e acrescento, honestos e com princípios altruístas, que levem este nosso país realmente a sério, haja vista os políticos e líderes que governam a nação brasileira.

Não deixo de reconhecer que o Brasil já melhorou muito, principalmente na sua auto-afirmação no cenário internacional, que já adquiriu credibilidade suficiente para dar a cada brasileiro, esperanças de dias melhores, principalmente no que se refere às condições básicas que qualquer país precisa para prosperar, a saber: educação, saúde, segurança e salário digno. Porém, se faz necessário priorizar as necessidades das "gentes" brasileiras.

Mauro Feijó

População se manifesta contra altos investimentos para a Copa, no dia da estreia da Copa das Confederações em Fortaleza

Nesta quarta-feira (19), dia em que a cidade de Fortaleza, no Ceará, recebe sua primeira partida de futebol pela Copa das Confederações com participação da Seleção Brasileira, a população fortalezense organiza o ato "+ Pão – Circo: Copa para quem?” para protestar contra os altos gastos com as obras para a Copa do Mundo 2014, enquanto a população sofre com a falta de investimentos em áreas básicas como saúde, educação e segurança.

"Não vamos reivindicar, pois o investimento já está feito, mas mostrar ao governo que não nos calamos diante dos investimentos absurdos na Copa enquanto não temos o básico, que é educação, saúde e segurança. [vamos] Mostrar a nossa voz gritando que queremos mais pão e menos circo”, ressaltam na página do evento.

Esta semana, muitos protestos tomaram as ruas de várias cidades brasileiras com reivindicações que vão desde a redução do reajuste de tarifas de transporte público, segurança e gastos bilionários com a Copa, a população de Fortaleza promete realizar um grande ato, na estreia da Seleção e da Copa das Confederações na cidade. Até a tarde de hoje, mais de 33 mil pessoas já haviam confirmado presença na manifestação organizada através da rede social facebook.

A concentração começará às 10h no pátio do Makro localizado à Av. Alberto Craveiro, com acesso também pela BR 116, e pretende seguir até a Arena Castelão.

Os/as organizadores/as pedem que os/as participantes "zelem pela integridade de todos” e realizem um ato pacífico, sem vandalismo e nenhum tipo de agressão. Também estão dividindo comissões específicas para aqueles/as interessados/as em contribuir com segurança, comunicação, agitação e propaganda, saúde e externa que auxiliará na parte jurídica se necessário.


Impactos das obras da Copa


Em Fortaleza, a estimativa é que cerca de 5 mil famílias em mais de 20 comunidade sejam removidas para dar lugar às obras de mobilidade urbana. No entanto, elas reclamam da falta de informação e diálogo com as comunidades, baixas indenizações e sobre o modo que são implantadas as obras e são feitas as remoções.

No último dia 14, na véspera da abertura da Copa das Confederações no Brasil, a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre moradia adequada disse que os megaeventos esportivos podem ser uma oportunidade de trazer melhorias para a população das cidades-sedes dos jogos, através de investimentos em sistemas de transportes, vias urbanas e acesso à moradia, por exemplo. Mas, ela também reconheceu que no meio deste processo muitos governos promovem despejos e deslocamentos forçados, além de pagar baixas indenizações que dificultam o reassentamento dessas famílias, podendo levar ainda a criação de novos assentamentos informais em condições inadequadas que acentuarão a desigualdade e aumentarão os índices de pobreza.

Em maio, uma equipe de auditores federais fez uma visita técnica à cidade para identificar as possíveis violações de direitos humanos, como o direito ao trabalho, à moradia e ao acesso à informação, decorrentes da execução das obras de mobilidade urbana para a Copa do Mundo. Na ocasião, o auditor André Marini ressaltou que as denúncias de violações se repetem em várias cidades do país.

Adital

Copa para quem? - Mesmo com repressão policial, protesto em Fortaleza reuniu mais pessoas do que jogo Brasil x México


Cerca de 80 mil pessoas participaram ontem (20) da manifestação +Pão –Circo: Copa para quem? em Fortaleza, Ceará, para protestar contra os investimentos bilionários utilizados na construção de estádios para a Copa do Mundo (2014), enquanto a população sofre com a estrutura precária na moradia, saúde e educação. Apesar do caráter pacífico, os/as manifestantes foram recebidos de forma truculenta pela polícia militar, que impediu a todo custo que a manifestação chegasse perto da Arena Castelão, palco do jogo de estreia da Copa das Confederações na cidade, que possui 63.903 lugares.
Os relatos dos abusos cometidos pela polícia são inúmeros. Em um dos casos, um vídeo flagra o momento em que os policiais reagiram ao canto pacífico do Hino Nacional com o lançamento de bombas de gás lacrimogêneo, surpreendendo os/as manifestantes. Em outro momento, um participante, munido apenas de cartazes e que tentava dialogar com os policiais, foi algemado e detido sem motivo aparente. No total, oito pessoas foram detidas e várias ficaram feridas.

Para André Lima, integrante do Comitê Popular da Copa de Fortaleza, a ação da polícia militar já era esperada, uma vez que, segundo ele, o governador do Ceará, Cid Gomes, já vinha anunciando que "qualquer manifestação seria duramente reprimida”.

Apesar disso, André afirma que a manifestação foi "muito positiva”, já que conseguiram pautar a imprensa nacional e até internacional, e levantar questionamentos sobre a Copa e as prioridades do governo. "Conseguimos nos manifestar numa situação totalmente adversa. Superou totalmente as expectativas”, comentou.



Ele ressaltou que o objetivo da manifestação é "fazer com que o governo ouça nossas reivindicações sobre a questão da Copa, remoções de famílias para a construção da linha do Veículo leve sobre trilhos (VLT) e gastos públicos exorbitantes para a Copa que deixam sem recursos para educação e saúde”. André comentou que a tendência é aumentar também a resistência para a construção do Acquário do Ceará, projeto que prevê investimento milionário para um aquário com fins de atrair turistas.

Vem pra rua

Com cara pintada, os/as manifestantes, em sua maioria jovens, constantemente entoavam o brado "Vemprarua" e incitavam a população a se juntar aos protestos que visam mudar o Brasil.

Milhares de cartazes com dizeres como "Enquanto a bola rola falta saúde, falta escola”, "Vandalismo é a seca no Nordeste, é a fome, é a corrupção” e "Saúde e educação padrão Fifa” davam o claro recado aos governantes que a população exige mais investimento em áreas básicas, assim como são feitos investimentos em estádios de futebol. O fim da corrupção também foi outro tema dos protestos.
Adital

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ser radicalmente pobre para ser plenamente irmão




Imagem: caminho-franciscano.

Uma das primeiras palavras do Papa Francisco foi: "gostaria de uma Igreja pobre para os pobres”. Este desiderato está na linha do espírito de São Francisco, chamado de Poverello, o Pobrezinho de Assis. Ele não pretendeu gestar uma Igreja pobre para os pobres, pois isso seria irrealizável dentro do regime de cristandade, onde a Igreja detinha todo o poder. Mas criou ao seu redor um movimento e uma comunidade de pobres com os pobres e como os pobres.

Em termos de extração de classe, Francisco pertencia à afluente burguesia local. Seu pai era um rico mercador de tecidos. Como jovem liderava um grupo de amigos boêmios –jeunesse doré- que viviam em festas e cantando os jograis do Sul da França. Já adulto, passou por uma forte crise existencial. De dentro desta crise irrompeu nele uma inexplicável misericórdia e amor pelos pobres, especialmente, pelos hansenianos, incomunicáveis, fora da cidade. Largou a família e os negócios, assumiu a radical pobreza evangélica e foi morar com os hansenianos. O Jesus pobre e crucificado e os pobres reais foram os móveis de sua mudança de vida. Passou dois anos em orações e penitências, até que interiormente ouviu um chamado do Crucificado: "Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas”.

Custou a entender que não se tratava de algo material; mas, de uma missão espiritual. Saiu pelos caminhos pregando nos burgos o evangelho em língua popular. Mas o faz com tanta jovialidade, "grazie” e força de convencimento que fascinou alguns de seus antigos companheiros. Em 1209 conseguiu do Papa Inocêncio III a aprovação de sua "loucura” evangélica. Começou o movimento franciscano que em menos de vinte anos chegou a mais de cinco mil seguidores.

Quatro eixos estruturam o movimento: o amor apaixonado ao Cristo crucificado, o amor terno e fraterno para com os pobres, a "senhora dama” pobreza, a genuína simplicidade e a grande humildade.

Deixando de lado os outros eixos, tentemos compreender como Francisco via e convivia com os pobres. Nada fez para os pobres (algum lazareto ou obra assistencial); muito fez com os pobres, pois os incluía na pregação do evangelho e onde podia estava junto deles; mas fez mais: viveu como os pobres. Assumiu sua vida, seus costumes, beijava-os, limpava suas feridas e comia com eles. Fez-se um pobre entre os pobres. E se encontrasse alguém mais pobre que ele, dava-lhe parte de sua roupa para ser realmente o mais pobre dos pobres.

A pobreza não consiste em não ter, mas na capacidade de dar e mais uma vez dar até se expropriar de tudo. Não é um caminho ascético. Mas a mediação para uma excelência incomparável: a identificação com o Cristo pobre e com os pobres com os quais estabeleceu uma relação de fraternidade.

Francisco havia intuído que as posses se colocam entre as pessoas, impedindo o olho no olho e o coração com o coração. São os interesses, o que fica entre (inter-esse) as pessoas, que criam obstáculos à fraternidade. A pobreza é o permanente esforço de remover as posses e os interesses de qualquer tipo, para que daí resulte a verdadeira fraternidade. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o projeto de Francisco; daí a importância da radical pobreza.

Convenhamos que a pobreza assim extrema era pesada e dura. Ninguém vive só de mística. A existência no corpo e no mundo coloca exigências que não podem ser contrafeitas. Como humanizar esta desumanização real que comporta este tipo de pobreza? As fontes da época testemunham que os frades pareciam "silvestres homines (uns selvagens) que comiam pouquíssimo, andavam descalços e se vestiam com as piores roupas”. Mas, por espanto dizem, nunca perdiam a jovialidade e a acolhida de todos.

É neste contexto de extrema pobreza que Francisco valorizou a fraternidade. A pobreza de cada um era um desafio para o outro cuidar dele e buscar-lhe, pela esmola ou pelo trabalho, o mínimo necessário, dando-lhe abrigo e segurança. Com isso o ter é desbancado em sua pretensão de conferir segurança e humanização. Francisco queria que cada frade se comportasse como uma mãe para com o outro, pois as mães sabem cuidar, especialmente, dos doentes. Só o cuidado recíproco humaniza a existência como bem o mostrou M. Heidegger em seu Ser e Tempo. Para quem vivia totalmente desprotegido, a fraternidade significava efetivamente tudo. O biógrafo Tomás de Celano descreve a jovialidade e alegria no meio da rude pobreza. Assinala: "cheios de saudade procuravam encontrar-se; felizes eram quando podiam estar juntos; a separação era dolorosa, amarga a partida, triste a separação”. O despojamento total os abria para o desfrute das belezas do mundo, pois não as queriam possuir, apenas admirar e saborear.

São muitas as lições que se poderiam tirar desta aventura espiritual. Fiquemos apenas com uma: para Francisco as relações humanas devem se construir sempre a partir dos que não são e não tem na visão dos poderosos. Devem ser abraçados como irmãos. Só uma fraternidade que vem de baixo e que a partir dai engloba os demais, é verdadeiramente humana e tem sustentabilidade. A Igreja, como a temos hoje, nunca será como os pobres. Mas pode ser para e com os pobres como o sonha o Papa Francisco.

De todos os modos a existência de pobres constitui um desafio permanente para todos os que se comovem com as limitações que a pobreza comporta e que se empenham para criar condições reais para que se construa uma sociedade na qual não haja pobres; mas, que todos tenham o suficiente e decente para viver. Com se dizia nos Atos dos Apóstolos: "ninguém considerava sua a propriedade que possuía; tudo entre eles era comum; e não havia pobres entre eles” (At 4, 32.34). Era o comunismo primitivo de base ética e espiritual que sempre serviu de inspiração ao largo de toda a história, também para os dois Franciscos, o de Assis e o de Roma.

Leonardo Boff

domingo, 9 de junho de 2013

Supermercados de diplomas




Muito tem se falado nos últimos anos sobre a mercantilização da educação superior no Brasil, resultante, segundo Morais, da devastação intelectual e dos regimes discricionários que só criaram até agora uma pseudodemocracia (MORAIS, 2011, p. 24). Essa mercantilização, segundo o autor apenas citado, seria uma espécie de nova barbárie, uma vez que despreza por completo o mais precioso capital humano, a inteligência (Ibid.,p. 30).

1. A mercantilização da educação

Porém, quando falamos de "mercantilização da educação” no Brasil não devemos pensar apenas naquelas "faculóides” que oferecem cursos a R$ 1,99, sem se importar com o futuro que estão preparando para o país. Esse tipo de instituição de ensino superior (IES) é um mero "supermercado de diplomas” (Ibid., p. 70) que vende, no senso mais estrito da palavra, certificados e históricos escolares, e se mantêm funcionando porque as disposições legais que regema educaçãosuperior no Brasil não são cumpridas e essas instituições não são seriamente fiscalizadas.

A mercantilização da educação superior pode acontecer também em instituições que, se declarando sérias, vão, aos poucos, deixando-se seduzir pelos atrativos do mercado. Pressionadas pela lei da concorrência, essas instituições deixam de lado os objetivos da missão e a ética e terminam por ceder às imposições do mercado. E isso acontece porque os atuais discursos e práticas ideológicas neoliberais permeiam tudo, inclusive ajudando a dissimular a realidade:

A ideologia caracteriza-se por dissimular a realidade, apresentando como "naturais” elementos que na verdade são determinados pelas relações econômicas de produção, por interesses da classe economicamente dominante [...]. O discurso liberal permeia, entre nós, as propostas oficiais e muitas das concepções dos próprios educadores [...]. Essa tendência expressa uma visão da instituição escolar que chamaríamos de otimista e ingênua. Ela a vê como algo fora da dinâmica social, como impulsionadora desta dinâmica e acredita que, sendo espaço privilegiado de transmissão de cultura, a escola "dá o tom” à sociedade (RIOS, 2007, p. 35-36).

Tem razão Rios, uma vez que quem "dá o tom” é a visão neoliberal que tem no mercado o seu foco. Tudo vira mercadoria a ser vendida e negociada, inclusive a educação. E neste contexto as decisões não ficam por conta dos que fazem e dos que agem. Elas são tomadas pelos que investem:

[...] os empregados, os fornecedores e os porta-vozes da comunidade não tem voz nas decisões que os investidores podem tomar; e que os verdadeiros tomadores de decisão, as "pessoas que investem”, têm o direito de descartar, de declarar irrelevante e inválido qualquer postulado que os demais possam fazer sobre a maneira como elas dirigem a companhia (BAUMAN, 1999, p. 13).

E de que maneira as IES, inclusive as públicas, cedem a essa pressão do sistema neoliberal? De várias maneiras, eu responderia. De um modo geral as IES continuam com um discurso bonito, defendendo princípios éticos e de uma educação de qualidade, voltada para a construção de um país justo e solidário. Na prática, porém, a teoria é outra.

Maioridade penal: omissão e distorção na mídia




Quem acompanha diariamente as notícias na mídia sobre atos de violência cometidos por adolescentes tem a sensação de que os jovens brasileiros são os autores da maioria dos crimes graves no país. A mídia tem sido muito eficiente em provocar uma quase-histeria na opinião pública, para tentar legitimar mudanças nas leis do país. A principal delas seria a redução da maioridade penal para 16 anos. Comentaristas de TV e de emissoras de rádio –principalmente– têm sido pródigos em vociferar argumentos equivocados, de forte apelo emocional, na tentativa de imputar aos adolescentes infratores uma violência muito maior do que de fato ocorre. Jornalistas e radialistas mal informados (na melhor das hipóteses) ou irresponsáveis e inconsequentes, e, neste caso, pouco éticos –com a conivência dos proprietários– usam os meios de comunicação para difundir preconceito e discriminação.

Argumentos falsos não resistem à informação correta. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), os adolescentes brasileiros são responsáveis por 3,8% dos homicídios. Ou seja, uma quantidade muito pequena diante da gritaria geral para sustentar a redução da maioridade como a grande solução para a diminuição da criminalidade no país. A quem se quer enganar com tão tosca solução, que se provará tão inútil quanto tantas outras que não combatem a raiz do problema? A maioria dos crimes cometidos por menores de idade que cumprem medida socioeducativa são crimes de roubo e furto (43,7%) e de tráfico de drogas (26,6%), conforme dados de 2011 do Ministério da Justiça.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Antidepressivos

Os medicamentos que denominamos de antidepressivos fazem parte de um grupo bastante heterogêneo de medicamentos com alguns efeitos terapêuticos em comum, o mais importante dos quais o de levar à melhora e remissão de episódios de depressão bem como conseguir evitar novos episódios. Os antidepressivos, apesar do nome, são medicamentos muito úteis em diversas áreas da medicina, não apenas no tratamento da depressão. São, por exemplo, eficazes também no tratamento de diversos transtornos de ansiedade, em pacientes com dor crônica ou ainda na prevenção de crises de enxaquecas.

Embora se conheça bastante sobre as ações destes medicamentos no cérebro e em outros orgãos, não se conhece exatamente como eles contribuem para a melhora da depressão. O que se sabe é que todos os medicamentos atualmente disponíveis denominados de antidepressivos influenciam a atividade das aminas bioativas que atuam em nosso cérebro como neurotransmissores, particularmente a serotonina, a noradrenalina e a dopamina. De modo geral, pode-se dizer que atuam sobre sistemas de células nervosas em nosso cérebro, relacionadas à motivação, ao controle da ansiedade, da depressão e das sensações dolorosas. Esses sistemas de células são regulados, de grosso modo, através de substâncias denominadas de neurotransmissores como as aminas bioativas citadas anteriormente. Os antidepressivos agem também sobre os receptores de acetil-colina e de histamina, responsáveis por parte de seus efeitos colaterais.

Os primeiros antidepressivos produzidos foram os inibidores de monoamino-oxidase (IMAO) irreversíveis como o medicamento Parnate, que surgiram no final da década de quarenta do século XX, entrando em uso clínico na década seguinte.

Apesar de sua grande eficácia e de mais de 50 anos de experiência acumulada, são usados hoje em dia apenas em certos casos mais difíceis, pois possuem sérios riscos (inclusive de vida) se, durante seu uso, fossem ingeridos certos tipos de alimentos (como queijos maduros e conservas, entre outros) ou usadas certas medicações. Existe a categoria dos inibidores reversíveis da MAO, cujo único medicamento disponível é a moclobemida (Aurorix) que não apresenta este problema de interação com medicamentos e alimentos.

No final da década de cinqüenta, foi sintetizada a imipramina (Tofranil), o primeiro medicamento da classe dos antidepressivos tricíclicos, que não apresentavam esses riscos.

Os antidepressivos tricíclicos, embora ainda muito utilizados no Brasil devido ao seu baixo preço, ainda possuem muitos efeitos colaterais (entre outros, boca seca, intestino preso, tendência a aumento de peso, impossibilidade de usá-los em pacientes com alguns problemas cardiológicos). Por isso, continuou-se a procura por medicações mais seguras e com menos efeitos adversos.

Dos antidepressivos “novos”, os mais importantes foram os inibidores de recaptação de serotonina, dos quais o primeiro a ser lançado foi a fluoxetina (Prozac, Eufor entre outros). A seguir, foram criados outros medicamentos, como a sertralina (Zoloft), o citalopram (Cipramil), a paroxetina (Aropax) e a fluvoxamina (Luvox) que compartilhavam do mesmo mecanismo de ação. São medicamentos muito seguros que revolucionaram a pratica psiquiátrica.

Desde então vêm sendo desenvolvidas outras drogas, algumas com maior ação sobre a noradrenalina, outras sobre a dopamina e, ainda outras, que atuam de modo simultâneo sobre dois neurotransmissores. Dentro deste último grupo encontramos alguns medicamentos muito úteis como a venlafaxina (Efexor), o milnaciprano (Ixel) e a duloxetina (Cymbalta). Nenhuma dessas drogas mais novas se mostrou mais eficaz que as antigas. A diferença reside, basicamente, no fato de terem menos efeitos colaterais ou, pelo menos, efeitos colaterais diferentes, de modo que podemos escolher qual o melhor medicamento para o nosso cliente, por exemplo, aumento ou diminuição do apetite.

Todos antidepressivos, além de serem eficazes no tratamento do episódio depressivo, também previnem o surgimento de novos episódios. Esta propriedade faz com que alguns pacientes se julguem “dependentes”, pois podem voltar a ter episódios de depressão quando interrompem o medicamento. De fato, esta recidiva ocorre após 6 semanas da interrupção e é devida à própria história natural da depressão.

Fonte: neurociencias.org

Dependência química

A dependência química é uma síndrome caracterizada pela perda do controle do uso de determinada substância psicoativa. Os agentes psicoativos atuam sobre o sistema nervoso central, provocando sintomas psíquicos e estimulando o consumo repetido dessa substância. Alguns exemplos são o álcool, as drogas ilícitas e a nicotina.

Considerada uma doença, a dependência química apresenta os seguintes sintomas:
Tolerância: necessidade de aumento da dose para se obter o mesmo efeito;
Crises de abstinência: ansiedade, irritabilidade, insônia ou tremor quando a dosagem é reduzida ou o consumo é suspenso;
Ingestão em maiores quantidades ou por maior período do que o desejado pelo indivíduo;
Desejo persistente ou tentativas fracassadas de diminuir ou controlar o uso da substância;
Perda de boa parte do tempo com atividades para obtenção e consumo da substância ou recuperação de seus efeitos;
Negligência com relação a atividades sociais, ocupacionais e recreativas em benefício da droga;
Persistência na utilização da substância, apesar de problemas físicos e/ou psíquicos decorrentes do uso.

Prevalência

A dependência química é uma das doenças psiquiátricas mais freqüentes da atualidade. No caso do cigarro, de 25% a 35% dos adultos dependem da nicotina. A prevalência da dependência de álcool no Brasil é de 17,1% entre os homens e de 5,7% entre as mulheres, segundo o 1o Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no país, realizado em 2001 pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo revelou que quase 20% dos entrevistados já haviam experimentado alguma droga que não álcool ou tabaco. Entre elas, destacaram-se a maconha (6,9%), os solventes (5,8%) e a cocaína (2,3%).

É preciso observar que, nos últimos 10 anos, houve uma mudança no consumo da cocaína. Em alguns centros de atendimento a adictos, como o Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA), do Hospital das Clínicas da USP, diminuiu o número de pacientes que injetam cocaína, ao passo que aumentou a quantidade de usuários do crack. Essa apresentação da cocaína atinge o sistema nervoso central de maneira mais rápida e intensa que a droga aspirada. A taxa de complicações associadas ao uso é maior, porque o crack rapidamente gera uma dependência grave e de difícil tratamento.

Tratamento

As pesquisas mostram que, após o tratamento da dependência, as recaídas são freqüentes: 50% nos seis primeiros meses e 90% no primeiro ano. Todavia, vale lembrar que se trata de uma doença crônica e que, se avaliada como tal, os resultados da terapia são semelhantes aos de outras enfermidades persistentes, como asma, hipertensão e diabetes.

As altas taxas de reincidência não significam que o tratamento seja ineficiente. O uso, reduzido ou suprimido com a terapia, é um dos parâmetros que medem a eficácia, bem como relações familiares e sociais, atividades profissionais, acadêmicas e de lazer e o não envolvimento com a Justiça.

Um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento é a motivação, visto que muitos pacientes não se consideram doentes. Dependentes de drogas que não procuram assistência sofrem mais complicações associadas ao uso, como infecções (inclusive Aids, para os adeptos de drogas injetáveis), desemprego e atividades ilegais. A mortalidade também é maior entre esses indivíduos, causada principalmente por overdose, suicídio e homicídio.

Tratamento

Há duas abordagens no tratamento da dependência química: a psicoterapia e a farmacoterapia. O modelo psicoterápico mais bem fundamentado é o cognitivo-comportamental, que prevê abstinência da substância, evitação de situações que induzam ao consumo e treinamento para resistir ao uso em circunstâncias que não possam ser evitadas.

O tratamento tende a ser mais eficaz se acompanhado por atendimento familiar. Estimula-se também a procura de grupos de auto-ajuda, como Alcoólatras ou Narcóticos Anônimos. A internação é indicada em casos específicos, como risco de suicídio, agressividade, psicose e uso descontrolado da substância, que esteja impedindo a freqüência às consultas.

O uso de medicamentos para o tratamento da dependência de álcool tem apresentado bons resultados. Três substâncias já demostraram eficácia em estudos de avaliação. A primeira delas inibe a metabolização do álcool, o que provoca mal-estar, náuseas e alterações hemodinâmicas caso o indivíduo tome bebidas alcóolicas. É adequada para pacientes motivados, que conseguem atingir a abstinência, mas têm dificuldade para mantê-la. A medicação funciona como um inibidor de recaídas, já que o paciente, temendo passar mal, controla seu impulso para beber.

Outro medicamento adotado no tratamento diminui o efeito do álcool e, no curto prazo, está associado a um número maior de dias sem beber e quantidades menores de doses quando o paciente bebe. A terceira droga, por sua vez, diminui a excitação exagerada do sistema nervoso central na ausência do álcool.
Na dependência de nicotina, o tratamento farmacológico pode ser feito por meio da reposição de nicotina, que diminui sintomas e sinais da abstinência e reduz o risco de recaída nas primeiras semanas. As alternativas existentes são goma de mascar, adesivo, spray e inalador (as duas últimas ainda não estão disponíveis no Brasil). O uso de determinados medicamentos também é eficaz na redução das chances de recaída no primeiro ano de tratamento.

Quanto à dependência de cocaína, maconha e inalantes, não há provas suficientes da eficácia de algum medicamento.

Mesmo após o tratamento e a abstinência da substância psicoativa, não se considera o paciente curado. Por muitos anos, talvez indefinidamente, ele irá apresentar maior risco que a população em geral de desenvolver o uso abusivo ou a dependência da substância. Para a maior parte dos dependentes, a abstinência total é a opção mais segura para a doença não retornar.

A ampliação do conhecimento sobre o mecanismo de ação da dependência química, sobretudo nas formas de atuação sobre o chamado “circuito da recompensa”, deverá possibilitar o desenvolvimento de medicações cada vez mais específicas para o problema. Outra estratégia que já está sendo testada em seres humanos é o desenvolvimento de vacinas, especialmente para cocaína e nicotina.

Fonte: neurociencias.org