Sua obra traz aquela fabulosa confusão entre uma escrita autobiográfica e uma narrativa ficcional. Talvez, por certo ponto de vista, sua obra seja sempre autobiográfica, um encontro de sua vida objetiva e seu universo imaginário. Suas palavras são carregadas de sinceridade, e externam, com sofisticação, as diferentes faces de suas sensações, percepções, medos e vontades. Em suas palavras, “quando me comunico com um adulto, na verdade, estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma. O adulto é triste e solitário”.
A TV Cultura mantém em seu acervo uma interessante entrevista com Clarice realizada pouco antes de sua morte, na qual Júlio Lerner envereda pelos diversos aspectos desta instigante personalidade.
Com muita firmeza, a escritora se coloca em uma posição interessante sobre seu ofício: “Eu não sou profissional. Só escrevo quando eu quero. Eu sou amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então com o outro, em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade”.
Clarice Lispector, ucraniana que aportou no Brasil com apenas dois meses de vida, revela ter diversos períodos de hiato entre uma produção e outra. São momentos ocos. Na arte, seu espírito sobrevive e, quando esta insiste em não emergir, a escritora procura se lançar à folha em branco, para que o hiato não perdure demais. “Eu acho que enquanto eu não escrevo estou morta”.
Ora as ideias que se materializam encontram um substrato tão profundo que nem mesmo aquela que lhe deu vida o compreende. É o caso do conto O ovo e a galinha, que à própria autora engendra seus mistérios.
A Clarice mulher convive bem com a Clarice escritora. Não em termos de harmonia, mas em um deixar ser. O fato dela se considerar escritora, contudo, lhe dá um rótulo, uma aura mediadora, que vem imbuída de questões. “Tudo que eu digo, até a maior bobagem, é considerado uma coisa linda ou uma coisa boba. Tudo na base de ser uma escritora. É por isso que eu não ligo muito para essa coisa de ser escritora e dar entrevista e tudo. É porque eu não sou isso”.
Ela era uma mulher receptiva aos jovens e costumava receber estudantes universitários. Levar à sala de aula um pouco de Clarice por ela mesma poderá proporcionar uma reconfiguração da imagem que sua obra projeta nos alunos, dando imagem e voz para a autora. Seu sotaque, a dureza de seu semblante, a força, muitas vezes de um frio amargor, de suas palavras, sua reação às perguntas de Júlio Lerner, são signos que se mesclam aos textos que a autora nos legou. Vê-la nos lembra que a partida e chegada de toda a cultura humana são as pessoas que dela fazem parte.
Fonte: TVcultura




