Na vida experimentamos um paradoxo curioso: quanto mais avançamos em idade, mais regredimos para os tempos da infância. Parece que a vida nos convida a unir as duas pontas e começar a fazer uma síntese final. Ou, quem sabe, o ocaso da vida com a perda inevitável da vitalidade, com os ritmos mais calmos e os limites incontornáveis desta última fase inconscientemente nos levam a buscar fortalecimento lá onde tudo começou. A cansada existência vem molhar as raízes naqueles começos de antanho para ainda tentar se rejuvenescer e chegar bem à travessia final.
Pois foi o que me ocorreu nesta primeira semana de fevereiro. Voltei à terra, às velhas terras ("terre vecchie”, como dizemos entre os familiares): Concórdia, no interior de Santa Catarina. A cidade e as vizinhas são conhecidas em todo Brasil por seus produtos: quem não comprou frangos Sadia de Concórdia; presunto da Perdigão de Herval do Oeste; salames de Aurora de Chapecó e linguiças de Seara? Pois todos estes frigoríficos distam poucos quilômetros uns dos outros. É uma região rica, de colonos italianos, alemães e poloneses, lugares onde o Brasil parece ter dado certo. Tudo é praticamente integrado; as casas são elegantes e coloridas; o bem-estar generalizado e não se conhecem favelas como as tantas que cercam a maioria das cidades do país.
Primeiramente, visitamos os sobreviventes da família. Do lado de minha mãe, apenas uma tia carregada de anos e de dores; do lado do meu pai, ninguém mais. Só restam primos e primas. A maioria foi para as cidades, um trabalha em Montreal, como criador de jogos da internet; outro, é diplomata; os demais, em profissões liberais. Alguns ficaram na terra.
Em seguida, os lugares queridos da infância: cada morro, cada curva do caminho, cada subida ou descida e os vastos horizontes por todos os lados, vislumbrando-se montanhas do Rio Grande do Sul e os elevados dos Campos Gerais de Santa Catarina. O olhar infantil exagera nas proporções. O que considerávamos uma subida penosa e íngreme, não passa de singela descida ou subida. Os montes imensos são apenas coxilhas. Mas ficaram iguais as profundas canhadas, as pedras por todo canto que tornavam penosa a lavoura dos colonos: o cultivo do trigo e do milho. Os parreirais tão abundantes, um para cada casa, praticamente, despareceram, pois o vinho de qualidade se tornou acessível.
Aqui nos sentimos parte daquela paisagem, aqui estão nossas raízes, o lugar a partir de onde começamos a alimentar sonhos, a contemplar as estrelas nas frias noites de inverno e a nos situar no mundo. Curiosamente, quando tenho que falar em lugares tidos importantes como na Assembleia Geral da ONU ou em Harvard, remeto-me ao tempo da pedra lascada de onde vim; lembro o piá de pés descalços e cheios de bichos do pé que fui, alimentado com muita polenta e a leitura temporã de livros. Por mais esplêndidas paisagens que tenha tido ocasião de contemplar, nenhuma é interiormente mais bela do que aquela de minha infância. Porque ela é única no mudo. Tudo o que é único no universo nunca mais volta a ocorrer e por isso é intrinsecamente belo.
Mas, o que me marca cada vez que visito os parentes são as festas que improvisam: come-se muito, a comida regional, os "radicci” os vários tipos de "biscotti” e "cucas alemães”, a "fortaia” as massas, os queijos e salames caseiros e, naturalmente, o churrasco. A maioria que ficou na terra teve pouca escolarização: falam um mistura deliciosa de dialeto vêneto e de português. A cantilena é a mesma, com forte sotaque italiano, do qual eu mesmo nunca me libertei. As mãos rudes do trabalho e os rostos vincados da luta pela vida causam forte impressão. E vigora entre todos uma benquerença e cordialidade de fazer chorar. Os abraços são de vergar as costelas e os beijos das primas mais idosas, da nossa idade, são longos e estalados. De algumas sinto o cheiro de minha própria mãe, o mesmo olhar, a mesma forma de colocar a mão à cintura. Quem resistirá a emoção?
Os tempos voltam ao início misterioso da caminhada da vida. Mas temos que prosseguir. Eles vão junto no coração, agora leve e rejuvenescido porque molhou as raízes na essência da vida que é o sangue, o laço, o afeto e o amor.
Leonardo Boff
Este blog tem como objetivo provocar o cérebro, tanto para elucubrar quanto para relaxar. Traz textos e frases reflexivas, imagens e curiosidades diversas. É destinado a todos que buscam ler a realidade não só pelas palavras, mas de todas as formas como ela se oferece. Veja que os assuntos se misturam, pode ser chato, mas é assim mesmo que pensamos a realidade, não nos detemos a um assunto somente, pois uma coisa puxa a outra. Também oferece subsídios para aulas de filosofia no ensino básico.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
O outro como ele é
A gente anda por aí e encontra o outro o tempo todo em vários lugares. Encontra no trabalho, na rua, nas diversas repartições de serviços, encontra em casa e assim por diante. Mas este encontro que pode ir além do casual nem sempre tem os quesitos de um verdadeiro encontro, isto é, um encontro de “eu-com-outro-eu” onde cada ente tenha a sua individualidade respeitada.
Feliz daquele que tem o privilégio de encontrar no outro, o outro como ele é. O que pode parecer confuso, esclareço, dizendo que a pessoa moderna vê todas as coisas sob a ótica do individualismo, inclusive quando olha o outro. Desta forma o outro não se revela, ele é apenas definido por quem o encontra.
Sob este aspecto cada um de nós é obrigado a se perguntar, se realmente, quando ocorre o encontro, o outro é definido ou revelado, o olhar de cada um no encontro se dirige a si próprio, a seus interesses ou não.
Um pensador francês afirma sem rodeios que o individualismo é a ideologia da modernidade. E entende por ideologia o conjunto de valores, de ideias, de símbolos que nos configuram a visão do mundo e do outro.
Se tal pensador estiver com a razão, então é forçoso concluir que as relações interpessoais estão cada vez mais prejudicadas pelo olhar individualista de cada pessoa.
Dito isto, é possível concluir que o maior desafio das pessoas que se encontram, é orientar o instinto individualista para que o outro possa se manifestar como ele é. Para isso cada pessoa precisa sair de si em direção ao outro da forma mais amorosa possível. Neste sentido, somente uma força intencional e humanizante de valorização do outro poderá fazer a diferença.
Mauro Feijó
Feliz daquele que tem o privilégio de encontrar no outro, o outro como ele é. O que pode parecer confuso, esclareço, dizendo que a pessoa moderna vê todas as coisas sob a ótica do individualismo, inclusive quando olha o outro. Desta forma o outro não se revela, ele é apenas definido por quem o encontra.
Sob este aspecto cada um de nós é obrigado a se perguntar, se realmente, quando ocorre o encontro, o outro é definido ou revelado, o olhar de cada um no encontro se dirige a si próprio, a seus interesses ou não.
Um pensador francês afirma sem rodeios que o individualismo é a ideologia da modernidade. E entende por ideologia o conjunto de valores, de ideias, de símbolos que nos configuram a visão do mundo e do outro.
Se tal pensador estiver com a razão, então é forçoso concluir que as relações interpessoais estão cada vez mais prejudicadas pelo olhar individualista de cada pessoa.
Dito isto, é possível concluir que o maior desafio das pessoas que se encontram, é orientar o instinto individualista para que o outro possa se manifestar como ele é. Para isso cada pessoa precisa sair de si em direção ao outro da forma mais amorosa possível. Neste sentido, somente uma força intencional e humanizante de valorização do outro poderá fazer a diferença.
Mauro Feijó
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O legado da crise atual: rever e reinventar conceitos
Nutro a convicção, partilhada por outros analistas, de que a crise sistêmica atual nos deixará como legado e desafio a urgência de repensar a nossa relação para com a Terra, para com os modos de produção e consumo, reinventar uma forma de governança global e uma convivência que inclua a todos na única e mesma Casa Comum. Para isso é forçoso rever conceitos-chaves, que como bússola nos possam apontar um novo norte. Boa parte da crise atual se deriva de premissas falsas.
O primeiro conceito a rever é o de desenvolvimento. Na prática ele se identifica com o crescimento material, expresso pelo PIB. Sua dinâmica é ser o maior possível, o que implica exploração desapiedada da natureza e a geração de grandes desigualdades nacionais e mundiais. Importa abandonar esta compreensão quantitativa e assumir a qualitativa, esta sim como desenvolvimento, bem definido por Amartya Sen (prêmio Nobel) como "o processo de expansão das liberdades substantivas”, vale dizer, a ampliação das oportunidades de modelar a própria vida e dar-lhe um sentido que valha a pena. O crescimento é imprescindível; pois, é da lógica de todo ser vivo, mas só é bom a partir das interdependências das redes da vida que garantem a biodiversidade. Em vez de crescimento/desenvolvimento deveríamos pensar numa redistribuição do que já foi acumulado.
O segundo é o manipulado conceito de sustentabilidade que, no sistema vigente, é inalcançável. Em seu lugar deveríamos introduzir a temática, já aprovada pela ONU, dos direitos da Terra e da natureza. Se os respeitássemos, teríamos garantida a sustentabilidade, fruto da conformação à lógica da vida.
O terceiro é o de meio-ambiente. Este não existe. O que existe é o ambiente inteiro, no qual todos os seres convivem e se interconectam. Em vez de meio ambiente faríamos melhor usar a expressão da Carta da Terra: comunidade de vida. Todos os seres vivos possuem o mesmo código genético de base, por isso todos são parentes entre si: uma real comunidade vital. Este olhar nos levaria a ter respeito por cada ser, pois tem valor em si mesmo para além do uso humano.
O quarto conceito é o de Terra. Importa superar a visão pobre da modernidade que a vê apenas como realidade extensa e sem inteligência. A ciência contemporânea mostrou e isso já foi incorporado até nos manuais de ecologia, que a Terra não só tem vida sobre ela, mas é viva: um superorganismo, Gaia, que articula o físico, o químico e as energias terrenas e cósmicas para sempre produzir e reproduzir vida. Em 22 de abril de 2010 a ONU aprovou a denominação de Mãe Terra. Este novo olhar, nos levaria a redefinir nossa relação para com ela, não mais de exploração; mas, de uso racional e respeito. Nossa mãe a gente não vende nem compra; respeita e ama. Assim com a Mãe Terra.
O quinto conceito é o de ser humano. Este foi na modernidade pensado como desligado, fora e acima da natureza, fazendo-o "mestre e senhor” dela (Descartes). Hoje o ser humano está se inserindo na natureza, no Universo e como aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Essa perspectiva nos leva a assumir a responsabilidade pelo destino da Mãe Terra e de seus filhos e filhas, sentindo-nos cuidadores e guardiães desse belo, pequeno e ameaçado Planeta.
O sexto conceito é o de espiritualidade. Esta foi acantonada nas religiões quando é a dimensão do profundo humano universal. Espiritualidade surge quando a consciência se apercebe como parte do Todo e intui cada ser e o inteiro Universo, sustentados e penetrados por uma força poderosa e amorosa: aquele Abismo de energia, gerador de todo o ser. É possível captar o elo misterioso que liga e re-liga todas as coisas, constituindo um cosmos e não um caos. A espiritualidade nos confere sentimento de veneração pela grandeur do universo e nos enche de autoestima por podermos admirar, gozar e celebrar todas as coisas.
Temos que mudar muito ainda para que tudo isso se torne um dado da consciência coletiva! Mas é o que deve ser. E o que deve ser tem força de realização.
Leonardo Boff
O primeiro conceito a rever é o de desenvolvimento. Na prática ele se identifica com o crescimento material, expresso pelo PIB. Sua dinâmica é ser o maior possível, o que implica exploração desapiedada da natureza e a geração de grandes desigualdades nacionais e mundiais. Importa abandonar esta compreensão quantitativa e assumir a qualitativa, esta sim como desenvolvimento, bem definido por Amartya Sen (prêmio Nobel) como "o processo de expansão das liberdades substantivas”, vale dizer, a ampliação das oportunidades de modelar a própria vida e dar-lhe um sentido que valha a pena. O crescimento é imprescindível; pois, é da lógica de todo ser vivo, mas só é bom a partir das interdependências das redes da vida que garantem a biodiversidade. Em vez de crescimento/desenvolvimento deveríamos pensar numa redistribuição do que já foi acumulado.
O segundo é o manipulado conceito de sustentabilidade que, no sistema vigente, é inalcançável. Em seu lugar deveríamos introduzir a temática, já aprovada pela ONU, dos direitos da Terra e da natureza. Se os respeitássemos, teríamos garantida a sustentabilidade, fruto da conformação à lógica da vida.
O terceiro é o de meio-ambiente. Este não existe. O que existe é o ambiente inteiro, no qual todos os seres convivem e se interconectam. Em vez de meio ambiente faríamos melhor usar a expressão da Carta da Terra: comunidade de vida. Todos os seres vivos possuem o mesmo código genético de base, por isso todos são parentes entre si: uma real comunidade vital. Este olhar nos levaria a ter respeito por cada ser, pois tem valor em si mesmo para além do uso humano.
O quarto conceito é o de Terra. Importa superar a visão pobre da modernidade que a vê apenas como realidade extensa e sem inteligência. A ciência contemporânea mostrou e isso já foi incorporado até nos manuais de ecologia, que a Terra não só tem vida sobre ela, mas é viva: um superorganismo, Gaia, que articula o físico, o químico e as energias terrenas e cósmicas para sempre produzir e reproduzir vida. Em 22 de abril de 2010 a ONU aprovou a denominação de Mãe Terra. Este novo olhar, nos levaria a redefinir nossa relação para com ela, não mais de exploração; mas, de uso racional e respeito. Nossa mãe a gente não vende nem compra; respeita e ama. Assim com a Mãe Terra.
O quinto conceito é o de ser humano. Este foi na modernidade pensado como desligado, fora e acima da natureza, fazendo-o "mestre e senhor” dela (Descartes). Hoje o ser humano está se inserindo na natureza, no Universo e como aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Essa perspectiva nos leva a assumir a responsabilidade pelo destino da Mãe Terra e de seus filhos e filhas, sentindo-nos cuidadores e guardiães desse belo, pequeno e ameaçado Planeta.
O sexto conceito é o de espiritualidade. Esta foi acantonada nas religiões quando é a dimensão do profundo humano universal. Espiritualidade surge quando a consciência se apercebe como parte do Todo e intui cada ser e o inteiro Universo, sustentados e penetrados por uma força poderosa e amorosa: aquele Abismo de energia, gerador de todo o ser. É possível captar o elo misterioso que liga e re-liga todas as coisas, constituindo um cosmos e não um caos. A espiritualidade nos confere sentimento de veneração pela grandeur do universo e nos enche de autoestima por podermos admirar, gozar e celebrar todas as coisas.
Temos que mudar muito ainda para que tudo isso se torne um dado da consciência coletiva! Mas é o que deve ser. E o que deve ser tem força de realização.
Leonardo Boff
Preste atenção nas pessoas...
Sempre acreditei que cultivar pensamentos e sentimentos nobres pudesse ser uma maneira muito interessante de desenvolver habilidades para lidar com os desafios e problemas diversos, pois entendo que a pessoa nesta condição sempre terá mais recursos e maturidade para lidar nas diversas situações.
A pessoa que está neste patamar existencial certamente agirá com mais sabedoria, mais coragem e, consequentemente, mais facilidades do que outras pessoas.
Se isso fosse uma condição sine qua non para o comportamento das pessoas, sempre teríamos debates em alto nível para resolução dos problemas, independente da esfera onde eles se encontram. Só que, infelizmente, as coisas não funcionam assim, isto é, por vezes precisamos debater com pessoas míopes ou vesgas em relação às suas formas de olharem para a realidade. Neste caso, a solução para dirimir os problemas nem sempre será encontrada com facilidade ou até mesmo nem será encontrada.
Certa vez numa formação dessas oferecidas aos professores, escutando uma psicóloga, tive o privilégio de poder concluir o seguinte pensamento: preste muita atenção nas pessoas que se aproximam de ti, muitas vezes elas estão te dando a resposta de um problema que nem elas perceberam ainda. Então, faça-as enxergarem também...
Mauro Feijó
A pessoa que está neste patamar existencial certamente agirá com mais sabedoria, mais coragem e, consequentemente, mais facilidades do que outras pessoas.
Se isso fosse uma condição sine qua non para o comportamento das pessoas, sempre teríamos debates em alto nível para resolução dos problemas, independente da esfera onde eles se encontram. Só que, infelizmente, as coisas não funcionam assim, isto é, por vezes precisamos debater com pessoas míopes ou vesgas em relação às suas formas de olharem para a realidade. Neste caso, a solução para dirimir os problemas nem sempre será encontrada com facilidade ou até mesmo nem será encontrada.
Certa vez numa formação dessas oferecidas aos professores, escutando uma psicóloga, tive o privilégio de poder concluir o seguinte pensamento: preste muita atenção nas pessoas que se aproximam de ti, muitas vezes elas estão te dando a resposta de um problema que nem elas perceberam ainda. Então, faça-as enxergarem também...
Mauro Feijó
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Humildade
Nesses derradeiros dias de férias, por motivos diversos, tenho pensado muito em uma virtude bastante escassa nos dias modernos, refiro-me a humildade. Tenho a impressão de que a ênfase promovida e sugerida pela sociedade relativo à autonomia das gentes, tem tornado a pessoa cada vez mais individualista. Isto é ruim, pois por vezes a pessoa de bem se sente só e desamparada em seus problemas dentro desse mundo “de cada um por si”.
Esta sociedade de ídolos enlatados e criados a cada instante realmente sufoca a nobre virtude da humildade, parecendo até algo negativo. O escritor Jean-Louis Chrétien, se referindo à humildade diz “... que a mais profunda das virtudes tem uma reputação tão negativa”.
Lógico que uma sociedade que supervaloriza o poder, que promove um mundo de aparências, onde o “ser” perde espaço para o “ter”, só pode considerar a humildade como algo negativo. Esta sociedade criadora de necessidades em forma de fetiches e ídolos valoriza a pessoa apenas em sua escalada social e profissional, em detrimento de todo o resto que compõe o ser-pessoa. Nesta sociedade o que vale é estar a frente dos demais, e para isso não importa como, até mesmo usando os outros.
Humildade é a qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas. Já a sociedade faz outra leitura, dizendo que a pessoa humilde não tem ambição, nem garra, é fraca de personalidade e não sabe se impor. Portanto, assumir-se humilde nos dias de hoje é se diminuir, é ser bobo e idiota, que não sabe aproveitar as oportunidades da vida, deixando-se ultrapassar pelos outros.
Ser humilde é não se apegar às conquistas, não se agarrar ao prestígio e ao poder e tudo que dele emana, mas é ter a noção exata da própria envergadura, valorizando-se sempre, sem desvalorizar o outro.
Mauro Feijó
Esta sociedade de ídolos enlatados e criados a cada instante realmente sufoca a nobre virtude da humildade, parecendo até algo negativo. O escritor Jean-Louis Chrétien, se referindo à humildade diz “... que a mais profunda das virtudes tem uma reputação tão negativa”.
Lógico que uma sociedade que supervaloriza o poder, que promove um mundo de aparências, onde o “ser” perde espaço para o “ter”, só pode considerar a humildade como algo negativo. Esta sociedade criadora de necessidades em forma de fetiches e ídolos valoriza a pessoa apenas em sua escalada social e profissional, em detrimento de todo o resto que compõe o ser-pessoa. Nesta sociedade o que vale é estar a frente dos demais, e para isso não importa como, até mesmo usando os outros.
Humildade é a qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas. Já a sociedade faz outra leitura, dizendo que a pessoa humilde não tem ambição, nem garra, é fraca de personalidade e não sabe se impor. Portanto, assumir-se humilde nos dias de hoje é se diminuir, é ser bobo e idiota, que não sabe aproveitar as oportunidades da vida, deixando-se ultrapassar pelos outros.
Ser humilde é não se apegar às conquistas, não se agarrar ao prestígio e ao poder e tudo que dele emana, mas é ter a noção exata da própria envergadura, valorizando-se sempre, sem desvalorizar o outro.
Mauro Feijó
Partícula Deus ou partícula de Deus? Implicações filosóficas e teológicas

Desde os anos 60 do século passado, físicos teóricos se punham a questão: como podem as partículas elementares sem massa que surgiram com o big bang, ganharem massa, após trilhonéssimas fracções de segundo? Qual foi a partícula ou o campo energético que conferiu massa às partículas virtuais e assim fez irromper a matéria que compõe todo o universo?
Sabemos e, o faço de forma extremamente pedestre, que a matéria (segundo Einstein é energia altamente condensada) é composta por partículas elementares: topquarks e léptons. Quando estes se unem dão origem aos prótons e aos nêutrons. Esses, por sua vez, se unem e formam o núcleo atômico. Léptons, de carga negativa, são atraídos pelo núcleo atômico, com carga positiva e juntos formam os átomos. De átomos se compõem todos os seres existentes.
Portanto, topquarks e léptons são os tijolinhos básicos com os quais todo o universo e nós mesmos somos construídos. Junto com estas partículas elementares agem as quatro forças originárias que ordenam todo o universo, cuja natureza, a ciência não conseguiu ainda decifrar. Elas atuam conjuntamente e respondem pela expansão, ordenação e complexificação de todo o processo cosmogênico: a força gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e forte.
Peter Higgs (*1929) um tranquilo pesquisador de física teórica da universidade de Edinburgo na Inglaterra, sugeriu que deveria existir uma partícula, um bóson ou um campo energético, responsável pela massa de todas as partículas. O físico Leon Lederman (Nobel de Física) chamou-a de partícula de Deus. Outros a denominaram de partícula Deus, porque ela é a criadora de toda a matéria do universo.
Que seria esse bóson Higgs ou campo Higgs? Os físicos o imaginam como um fluido viscoso finíssimo que enche todo o universo, à semelhança do éter de Aristóteles e da física clássica. Quando as partículas elementares sem massa, puramente virtuais, tocam esse bóson ou interagem com o campo Higgs sofrem resistência, são freadas, pressionadas e consolidadas e destarte ganham massa e peso.
No dia 4 de julho de 2012 no Grande Colisor de Hádrions entre a Suíça e a França, após acelerar partículas que colidiam, quase à velocidade da luz, os cientistas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN) identificaram uma partícula que preenche as características atribuídas ao bóson de Higgs. Supõe-se que seja ele ou outra partícula similar, mas que efetivamente confere massa às partículas elementares.
Esta verificação confirma o modelo standard do universo originado pelo big bang; daí a sua importância.
Mas como entra Deus nisso tudo? Se dissermos que esta partícula é Deus, seguramente a teologia não o aceitaria, pois faria de Deus uma parte do universo. Ele é mais. É aquela Energia de Fundo, aquele Abismo possibilitador e sustentador do universo, que antecede ao big bang. Ele estaria além do "muro de Planck”, o limite intransponível, anterior ao tempo zero a partir do qual em 10 na potência 43 de segundos após o big bang teria surgido a matéria do universo. Atrás deste muro se esconde aquela Energia poderosa e amorosa que origina tudo, inalcançável pela física mas acessível pela mística.
Se dissermos que o bóson de Higgs é a partícula de Deus podemos teologicamente aceitá-lo; seria o meio pelo qual Deus traria à existência as partículas materiais e assim todo o universo: um ato exclusivamente divino. Essa é a ontologia originária de Deus. A partícula de Deus nos mostra como se cria tudo o que nos é dado ver. Filosófica e teologicamente diria: ela nos revela como Deus fez surgir o mundo. E esse ato não se encontra no passado, mas se realiza em cada momento e em todas as partes do universo e também em nós que estamos à mercê desta partícula de Deus. Caso contrário tudo deixaria de ser, voltaria ao nada. Como a criação é contínua, aqui estamos.
Leonardo Boff
A quem interessar, o livro O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação, de M. Hathway e L. Boff foi premiado nos USA em 2010 com a medalha de ouro em Ciência e Cosmologia. Está em português pela Vozes 2012.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Visão problemática
Se você é como a maioria das pessoas, deve achar que a visão é um sentido aguçadíssimo, quase perfeito. Certo?
Errado. Faça a demonstração ilustrada no vídeo abaixo e descubra como a visão é cheia de falhas!
Fonte: cerebronosso.bio
Como enxergar através da sua mão
Visão de raio-x é coisa de cinema, certo? Bom... mais ou menos. Veja neste vídeo como enxergar através da sua mão, e descubra como o "fenômeno" acontece!
Fonte: cerebronosso.bio
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