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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Qual o sentido dos bons votos para o ano novo?



Já estamos adiantados no novo ano e ainda assim nos desejamos bons votos de saúde e prosperidade. Que sentido tem tais votos no contexto mundial e nacional em que vivemos?

Eles ganham sentido se ocorrer o que pede, com urgência, a Carta da Terra, um dos documentos mais importantes e suscitadores de esperança do começo do século XXI: "uma mudança na mente e no coração, um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”(Conclusão). Quer dizer, se tivermos a coragem de mudar a forma de viver, se o modo de produção e consumo tomar em conta os limites da Terra, em especial, a escassez de água potável e os milhões e milhões que passam fome.

Não é impossível que possa ocorrer uma quebra sincronizada do sistema-Terra e do sistema-vida. Os tsunamis e os furacões são pequenas antecipações.Então a biodiversidade poderá, em grande parte, desaparecer, como outrora nas conhecidas 15 grandes dizimações sofridas pela Terra. Muitos humanos também perecerão e se salvarão apenas retalhos de nossa civilização.

Jared Diamond, conhecido especialista em biologia evolutiva e biogeografia da Universidade da Califórnia, em seu livro Colapaso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso (Record 2012) mostrou como esse colapso ocorreu na Ilha de Páscoa, na cultura Maya e na Groelândia do Norte. Não seria uma miniatura daquilo que poderá ocorrer com a Terra, uma Ilha de Páscoa ampliada? Quem nos garante que isso não seja possível?

Há setas em nossos caminhos que apontam para essa direção. E nós, nos divertindo, rindo gaiamente, jogando nas bolsas especulativas, como na fábula de Kierkegaard: um teatro está pegando fogo, o palhaço conclama, aos gritos, que os espectadores venham apagá-lo e ninguém vai pois achavam que era parte da peça. Todo teatro pegou fogo, consumindo o auditório, os espectadores e toda a redondeza. Noé foi o único a ler os sinais dos tempos: construiu a Arca salvadora e garantiu a si e representantes da biodiversidade.

Mas há uma diferença entre Noé e nós: agora não dispomos de uma Arca que salve alguns e deixe perecer os demais. Desta vez ou nos salvamos todos ou perecemos todos. Com razão nos conclama, em seu final, a Carta da Terra:

"Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo”. Observe-se que não se fala em reformas, melhorias, recortes, regulações, mas "de um novo começo”. Não é que tais iniciativas sejam sem sentido. Mas serão sempre mais do mesmo e intrassistêmicas. Elas não resolvem o problema-raiz: o sistema a ser mudado. Apenas protelam a solução; ele se encontra corroído por dentro e transformado numa ameaça à vida e ao futuro da Terra. Dele não poderá vir vida nova que inclua a todos e salve o nosso ensaio civilizatório.

Isto supõe reconhecer que os valores e os princípios, as instituições e os organismos, os hábitos e os modos de produzir e consumir já não nos asseguram um futuro discernível. O "novo começo” implica inventar uma nova Terra e forjar um novo estilo de "bem viver" e "bem conviver", produzindo o suficiente e o decente para todos, sem esquecer a comunidade de vida e os nossos filhos e netos.

Os eixos articuladores não serão mais a economia, o mercado, o sistema bancário nem a globalização, mas a vida, a Humanidade e a Terra, tida como Gaia, superorganismo vivo do qual nós somos a sua porção consciente e inteligente. Todos os demais subsistemas hão de servir a este grande sistema uno e diverso no qual todos serão interdependentes, construindo juntos um destino comum também com a Mãe Terra.

A situação da Terra e da Humanidade é comparável a um avião na pista de rolamento. Este começa a correr. Todo piloto sabe que chega um momento crítico em que o avião deve decolar, caso contrário se arrebentará no fim da pista. Não são poucos, como Michail Gorbachev, Martin Rees, James Lovelock, Eduard Wilson, Albert Jacquard entre outros que nos advertem: passamos o ponto crítico e não levantamos voo. Para onde vamos?

Como a evolução não é linear; mas, dá saltos; nunca perdemos a esperança, antes a cultivamos; de um salto quântico que nos salve com uma nova mente e um novo coração e, por isso, com um destino promissor para 2013.

Leonardo Boff

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Reality shows: uma reprodução do capitalismo. Entrevista com Silvia Viana


Os reality shows seriam impensáveis "até trinta anos atrás, quando o capitalismo tomava por justificativa o ‘bem-estar’ que produzia”, assinala a socióloga.
"Os reality shows são mal-estar enlatado para consumo, e isso só é possível em uma estrutura social que já não se preocupa com autolegitimação alguma”. A reflexão é de Silvia Viana, autora do livro Rituais de sofrimento, que será lançado pela Boitempo Editorial no dia 6 de fevereiro em São Paulo, a partir das 19h no Espaço Serralheria (Lapa). Para ela, a popularidade desses programas está diretamente relacionada à reprodução da "forma de dominação típica do capitalismo de acumulação flexível, dominação essa que ainda não foi superada”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Silvia compara os processos do programa à estrutura capitalista, onde "devemos ser ‘fortes’ para ‘superar as dificuldades’ (por mais imbecis e esdrúxulas que sejam) e, por fim, ‘sobrevivermos’”. E conclui: "O assustador é que essa mesma estrutura organiza nossa existência no atual modo de produção: trabalhamos para arrumar mais trabalho, para não sermos demitidos, para sobrevivermos... E se retirarmos essa fantasia que organiza nossa existência, o que resta é o ‘Truman Show’: o tédio insuportável da vida desprovida de sentido”.
Silvia Viana é graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, mestre e doutora em Sociologia pela mesma universidade.
Confira a entrevista a seguir:

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Arrisque-se!


Certa vez ao escutar uma entrevista de um treinador de futebol, conclui que se ele fizesse o que todos esperavam em relação à escalação do seu time, então ele não seria tão necessário, pois estaria vendo o que todos veem. Mas o próprio treinador dizia-se ousado e que precisava correr riscos, isto é, fazer o diferente, o não previsível. Quando não dava certo ele era vaiado, quase execrado pela sua torcida, mas quando obtinha sucesso, ele era exaltado com louvores de melhor treinador do país.

Esta atitude de arriscar na vida é sem dúvida um diferencial nas pessoas mais arrojadas. Podem ser consideradas desbravadoras, pois vão na frente abrindo caminhos que ninguém tenha percorrido ainda. São pessoas com espírito pioneiro, diferente daquelas que tem espírito de colono, que percorrem caminhos que outros já percorreram.

O filósofo Soren Kiekegaard tem uma frase muito interessante, que valoriza as pessoas que se arriscam na vida: "arriscar-se é perder o pé por algum tempo. Não se arriscar é perder a vida..."

O arriscar-se pode até soar um pouco irresponsável, porque transgride uma realidade previsível, deixando aquela sensação de não saber o que vem depois. Mas sem o risco, é certo que não se saberá o que poderia vir adiante, pois conforme o filósofo já citado, o maior azar da vida é não arriscar nada.

Mauro Feijó


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Legal ou justo?

Esta sociedade cheia de paradoxos na qual vivemos,  por vezes, me leva a pensar sobre o que é legal e o que é justo. E muitas vezes percebo o distanciamento desses dois conceitos, isto é, algo é considerado legal, pois encontra guarida na lei, mas que não é nada justo. 

Diante disto se estabelece um dilema, pelo menos pra mim, em decidir pelo mais nobre, se o justo ou se o legal?

A distinção destes dois conceitos é até bastante simples, chega a ser clássica, aprendemos na escola, mas o experimento que a vida nos oferece em relação a eles, por vezes, gera muita indignação, uma vez que nem sempre o que é de acordo com o direito é conforme à justiça. E o legal nem sempre será justo.

Adiante descrevo uma história que li em um jornal (não lembro qual), para ilustrar bem esta questão.

O proprietário de um imóvel entrou com uma ação de despejo contra os inquilinos, que não pagavam aluguel. Sem saber quem era o ocupante do imóvel, o Juiz determinou o despejo porque pareceu a ele, ser um desacato à Justiça, não pagar aluguéis e nem ao menos justificar o motivo da falta de pagamento.

Quando do cumprimento do mandado, o Oficial de Justiça viu que os inquilinos eram dois velhinhos, e o marido com doença em estado terminal. O Oficial de Justiça sensibilizado com a situação que presenciara, desconheceu a hierarquia e desobedeceu a ordem do Juiz.

Responsável por seu ofício, o Oficial de Justiça compareceu humildemente perante aquele que, na condição de Juiz de Direito, simbolizava a autoridade, e disse: doutor, eu não tive coragem de cumprir o mandado, embora saiba que meu dever é obedecer o que o Juiz manda e não discutir seus atos.

Sem falar nada, o Juiz determinou que ele juntasse aos autos o mandado não cumprido, com a justificativa da desobediência.

Quando os autos foram conclusos, o Magistrado escreveu que quisera, como Juiz de Direito, ter sempre a seu lado um Oficial de Justiça como aquele, que o impedira de praticar uma brutalidade, a que foi levado por desconhecer a real situação no caso concreto. O advogado dos velhinhos nada alegou, certamente porque não encontrou na lei qualquer artigo ou parágrafo que dispensasse um inquilino, por mais grave que fosse o motivo, do dever de pagar aluguel.

Esta história nos mostra um atrito entre a Lei e o Direito, portanto uma questão ética. Valores estão em jogo, não se trata de uma questão meramente jurídica, indo muito além de uma questão apenas legal. Neste caso passa a ser uma decisão de valor, e não pertence mais somente à Lei e sim, à Ética.

Portanto, é imperioso concluir que entre dois valores, devemos eticamente decidir pelo de maior hierarquia, prevalecendo o culto do Direito em detrimento ao culto da Lei.


Mauro Feijó

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Prioridades dos donos do mundo

Parem o mundo que eu quero descer! Os donos do planeta enlouqueceram ou não entendo bem o que propõem?
De 22 a 27 de janeiro, o Fórum Econômico Mundial de Davos, na bucólica Suíça, reunirá empresários, banqueiros e outros donos do dinheiro que parecem não dar a mínima para a crise econômica na Europa (18 milhões de desempregados!). É compreensível, hoje recursos públicos salvam bancos privados!
Os donos do mundo centram suas atenções no que qualificam de Fatores X – questões que os respeitáveis senhores e senhoras consideram prioritárias e que, se não forem encaradas com seriedade, podem desestabilizar a atual “ordem” mundial.
O relatório anual sobre os riscos globais, publicado duas semanas antes do encontro de Davos, teve colaboração da revista científica Nature na análise dos Fatores X:
Vamos a eles.
O primeiro, a possível descoberta de que há vida inteligente fora desse nosso planetinha desgraçadamente afetado pelas ambições do capital.
Com o ritmo da exploração do espaço nas últimas décadas - diz o documento preparatório de Davos -, é possível considerar que a humanidade pode descobrir vida em outros planetas. A maior preocupação seria sobre os efeitos nos investimentos em ciência, e a própria imagem do ser humano.
Supondo que seja encontrado um novo lar em potencial para a humanidade ou a existência de vida em nosso sistema solar, a pesquisa científica teria que deslocar grandes investimentos para a robótica e missões espaciais. Além disso, as implicações filosóficas e psicológicas da descoberta de vida extraterrestre seriam profundas, desafiando crenças das religiões e da filosofia humana. Por meio de educação e campanhas de alerta, o público poderia se preparar melhor para as consequências desse processo, sugere o fórum.
No início de 2013, dados coletados pelo observatório espacial Kepler, monitorado pela Nasa, indicam que só a nossa galáxia, a Via Láctea - com pelo menos 100 bilhões de estrelas ou sóis -, teria 17 bilhões de planetas rochosos, com tamanho entre 0,8 a 1,2 o da Terra. Pode ser que um ou mais estejam orbitando suas estrelas à distância adequada para o surgimento de vida.
Atrás dessa retórica “humanista” se esconde o projeto de loteamento do Cosmo. Haja fome de lucros! Eu, que sou crédulo, acredito em vida extraterrestre. Creio mesmo que nossos vizinhos já se aproximaram, mas ao captar nossas emissões televisivas concluíram que na Terra não há vida inteligente.
O segundo Fator X é o avanço cognitivo do cérebro humano pelo uso de estimulantes.
Segundo o documento de Davos, há o temor de que no futuro as pessoas abusem da tecnociência, que permite turbinar o desempenho no trabalho e nos estudos. A química fará de nós robôs ultraeficientes.
O esforço dos cientistas para tratar doenças como Alzheimer ou esquizofrenia leva a crer que, no futuro não muito distante, pesquisadores identificarão substâncias que permitam melhorar os estimulantes de hoje, como a Ritalina. Apesar de prescritos a pessoas com doenças neurológicas, esses remédios seriam usados no dia a dia.
O avanço poderia também vir de hardwares, diz o relatório. Estudos mostram que a estimulação elétrica pode favorecer a memória. Diante disso, seria ético aceitar o mundo dividido entre os que tiveram oportunidade de ter a parte cognitiva reforçada e os que não tiveram?, indaga o documento. Haveria, ainda, o risco de esse avanço dar errado.
O terceiro Fator X, o uso descontrolado de tecnologias para conter as mudanças climáticas, que acabariam afetando ainda mais o equilíbrio ecológico. Apesar de as ameaças de mudanças climáticas serem conhecidas, o relatório também indaga se já passamos de um ponto dramático de não retorno. Dados indicam que nosso planeta já perdeu ao menos 30% de sua capacidade de autorregeneração.
O quarto, os custos dos seres humanos viverem muito mais tempo, após a idade laboral. Os países não têm se preparado para os altos custos que a velhice, hoje qualificada de terceira idade, implica, e com a massa de pessoas que sofrerão de doenças como artrite e demências. A medicina do século XX avançou muito nas descobertas relativas às doenças genéticas, decifrando o genoma humano. São esperados ainda mais avanços no tratamento de doenças do coração e do câncer.
O documento preocupa-se com o impacto na sociedade de uma camada da população que conseguirá prever e, portanto, evitar as causas mais comuns de morte hoje, mas com deterioração da qualidade de vida. Velhos longevos, ociosos e dependentes. Mais pesquisas seriam necessárias para encontrar soluções para essas condições, hoje consideradas crônicas.
Por trás de tudo isso, um objetivo prioritário desses senhores e senhoras: onde investir nosso dinheiro, de modo a multiplicá-lo tanto quanto as estrelas do céu e as areias das praias e do mar...

Frei Betto

Morte antes do tempo

O escritor francês Gilbert Cesbron afirmava que sempre morremos espantados, pasmos de que a única coisa que é certa de acontecer na vida de todos os seres humanos finalmente tenha acontecido conosco. Também o filósofo Jean Paul Sartre dizia: "Morre-se sempre muito cedo. Ou muito tarde. E, no entanto, aí está. O traço está passado... Você não é nada além de sua vida.”

Espantados ou conscientes, o fato é que essa que ceifa a todos e todas, mais cedo ou mais tarde, choca muito mais quando chega prematuramente em vidas jovens que teriam tanto para dar e receber. A morte na juventude, provocada tanto pela violência nossa de cada dia e que atinge números assustadores, banalizou-se e deixou de indignar-nos. Acostumamo-nos, infelizmente, a assistir bocejando o noticiário sobre balas perdidas e achadas em corpos de crianças, jovens homens e mulheres, adolescentes etc.

No entanto, quando a morte não é por violência ou por acidente ou tantas outras forças destrutivas que acabam com a vida de tantos jovens, a nós choca mais. E deixa amargo sabor na boca, sentindo que nosso mundo ficou mais pobre, mais velho, menos criativo, sem brilhantes pessoas que ainda estavam em uma idade cheia de futuro.

A semana que passou foi marcada por duas destas mortes tempranas. No dia 10 amanheci com a notícia da morte da filha de uma colega. Tinha a mesma idade de minha filha mais velha. Linda por dentro e por fora, possuía uma inteligência comparável a seu encanto pessoal. Era doutora em Astronomia e apaixonada pelos segredos do universo em que vivia. Quando descobriu a leucemia que a vitimou lutou com toda a dignidade dos nobres e grandes. Em lugar de ficar se lamentando, ergueu a cabeça e foi estudar filosofia. Era amada por professores e colegas.

No meio de seu doloroso e incansável itinerário em busca da cura, encontrou o amor e casou-se. O marido, apaixonado, fazia tudo para enchê-la de carinho e acompanhá-la em todos os momentos. Assim como os pais, irmãos, amigos. Partiu serena depois de ter esgotado todos os recursos para buscar a vida. Não consigo esquecer seu rosto, a expressão dos seus olhos. Nem a mensagem que postou no Facebook no último dia do ano sobre o ponto azul do universo, cheia de desejos de paz. Estou ainda espantada com essa morte que acontece na ordem invertida, fora de tempo e lugar.

Hoje leio a notícia da morte por suicídio, no último dia 11, do brilhante jovem estadunidense Aron Swarz. As circunstâncias são tão estranhas quanto fora do comum era esse jovem de 26 anos, mente privilegiada, que aos 14 anos de idade já inventava e criava programas na internet e era um apaixonado pela luta pela democratização do conhecimento. O RSS, de co-autoria de Swartz aos 14 anos, é um recurso desenvolvido em linguagem XML, que permite aos responsáveis por sites e blogs divulgarem notícias ou novidades. O Reddit é um site de notícias baseado no compartilhamento social de conteúdo.

Seu erro foi ousar dentro do santuário do conhecimento, o MIT (Massachussets Institute of Technology) em Harvard, EUA. Ao disponibilizar publicamente vários artigos acadêmicos, foi acusado de violar a propriedade intelectual, moral e não sei quantas mais propriedades em uma sociedade tão ciosa das mesmas. Foi processado, devendo pagar pesadas multas e poderia ser preso por mais de 35 anos em caso de condenação.

Aron não aguentou a pressão e enforcou-se em seu apartamento. Era conhecido por ser um ativista da internet e defensor ardente da liberdade na rede. Em 2010, criou o DemandProgress.org, uma campanha online contra os projetos de lei americanos Sopa e Pipa, considerados pelos críticos uma forma de controle e censura na internet.

A morte de Aron traz à baila toda uma discussão sobre a liberdade ou a falta dela na assim chamada Sociedade do conhecimento. Os círculos mais sofisticados da inteligência norte-americana (destacando-se o MIT) levantaram-se em tributo a esse militante-programador-hacker, comenta a mídia. Eticamente, Aron Swarz colocou-se contra a mercantilização de conhecimento público. Ou seja, contra o fato de se ter de pagar para conseguir acesso ao conhecimento gerado com dinheiro público. Quando se trata de conhecimento, a privatização do que foi ou deveria ser público parece tornar-se questão de vida ou morte, comentam muitos jornalistas e ativistas da internet. E nós concordamos.

O que desejo registrar aqui é quanto a morte desses dois brilhantes jovens desorganiza o nosso cotidiano pensado em termos meramente cronológicos. Essas duas pessoas, embora vivendo menos do que a média de vida em seus países e classe social, deixaram sua marca no planeta e na humanidade mais do que muitos centenários que vivem pela metade ou ainda estão esperando para fazer as escolhas definitivas. Que o testemunho de ambos possa iluminar-nos hoje e sempre.

Maria Clara Lucchetti Bingemer
Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio

A luta pelo piso nacional do magistério. Entrevista com Heleno Araújo

"Nós lutamos por essa lei desde 1827, quando um decreto do Imperador decretava o piso salarial para os professores, que não foi pago porque as províncias diziam que não havia recursos para isso”, lembra o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Pernambuco – Sintepe.

O reajuste salarial do piso nacional dos professores foi recebido com críticas pela categoria porque, entre outros motivos, demonstram a "falta de vontade política em colocar a questão da educação como uma política essencial para o desenvolvimento do país”, argumenta Heleno Araújo à IHU On-Line. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Pernambuco – Sintepe, Araújo ressalta que a "avaliação é negativa não só pelo reajuste menor dos últimos três anos, mas pelo critério do Ministério da Educação - MEC, que descumpre a lei federal do piso nacional”. Segundo ele, de acordo com o artigo quinto da legislação, o piso nacional dos professores deveria ser R$ 2,321,00.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, ele informa que 17 estados não cumprem a lei. "Desses estados que não cumprem o piso nacional, ainda têm aqueles, como o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, que utilizam as gratificações para compor o valor do piso salarial, o que é incorreto”, esclarece. Araújo também critica a postura do governo do Rio Grande do Sul, Tarso Genro. "Ele foi Ministro da Educação, participou da elaboração inicial desse projeto, assinou essa lei e, infelizmente, na hora de ocupar o poder e executá-la, comete equívocos. No discurso é fácil citar a educação como prioridade, mas quando chegam ao poder, não aplicam o discurso à prática”.

Heleno Araújo é graduado em Ciências Biológicas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Pernambuco – Sintepe e secretário de assuntos educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação.

Confira a entrevista.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A fábula da águia e da galinha



Esta é uma história que vem de um pequeno país da África Ocidental, Gana, narrada por um educador popular, James Aggrey, nos inícios deste século, quando se davam os embates pela descolonização. Oxalá nos faça pensar sempre a respeito.

"Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro, a fim de mantê-lo cativo em casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. 

Colocou-o no galinheiro junto às galinhas. Cresceu como uma galinha. 

Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista.

Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: 

- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia. 

- De fato, disse o homem.- É uma águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais águia. É uma galinha como as outras. 

- Não, retrucou o naturalista.- Ela é e será sempre uma águia. Este coração a fará um dia voar às alturas. 

- Não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia. 

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a, disse: 

- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe! 

A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas. 

 O camponês comentou: 

- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha! 

- Não, tornou a insistir o naturalista. - Ela é uma águia. E uma águia sempre será uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã. 

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. 

Sussurrou-lhe: 

- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe! 

Mas, quando a águia viu lá embaixo as galinhas ciscando o chão, pulou e foi parar junto delas. 

O camponês sorriu e voltou a carga: 

- Eu havia lhe dito, ela virou galinha! 

- Não, respondeu firmemente o naturalista. - Ela é águia e possui sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar. 

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a  águia, levaram-na para o alto de uma montanha. O sol estava nascendo e 
dourava os picos das montanhas. 

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: 

- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe! 

A águia olhou ao redor. Tremia, como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então, o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, de sorte que seus olhos pudessem se encher de claridade e ganhar as dimensões do vasto horizonte. 

Foi quando ela abriu suas potentes asas. 

Ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto e voar cada vez mais para o alto. 

Voou. E nunca mais retornou."  


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Existem pessoas que nos fazem pensar como galinhas. E ainda até pensamos que somos efetivamente galinhas. Porém é preciso ser águia. Abrir as asas e voar. Voar como as águias. E jamais se contentar com os grãos que jogam aos pés para ciscar.”   




Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor de ética da UERJ