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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Balanço anual no micro: brotos no deserto

Desde Santo Agostinho ("em cada homem há simultaneamente um Adão e um Cristo), passando por Abelardo ("sic et non”), por Hegel e Marx e chegando a Leandro Konder sabemos que a realidade é dialética. Vale dizer, ela é contraditória porque os opostos não se anulam mas se tencionam e convivem permanentemente gerando dinamismo na história. Isso não é um defeito de construção mas a marca registrada do real. Ninguém melhor o expressou que o pobrezinho de Assis ao rezar: "onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver trevas que eu leve a luz, onde houver erros que eu leve a verdade...”. Não se trata de negar ou anular um dos polos, mas de optar por um, o luminoso e reforçá-lo a ponto de impedir que o outro negativo não seja tão destrutivo.

A que vem esta reflexão? Ela quer dizer que o mal nunca é tão mau que impeça a presença do bem; e que o bem nunca é tão bom que tolha a força do mal. Devemos aprender a negociar com estas contradições. Num artigo anterior tentei um balanço do macro, negativo; assim como estamos, vamos de mal a pior. Mas dialeticamente há o lado positivo que importa realçar. Um balanço do micro nos revela que estamos assistindo, esperançosos, ao brotar de flores no deserto. E isso está ocorrendo por todas as partes do planeta. Basta frequentar os Fóruns Sociais Mundiais e as bases populares de muitas partes para notar que vida nova está explodindo no meio das vítimas do sistema e mesmo em empresas e em dirigentes que estão abandonando o velho paradigma e se põem a construir uma Arca de Noé salvadora.

Anotamos alguns pontos de mutação que poderão salvaguardar a vitalidade da Terra e garantir nossa civilização.

O primeiro é a superação da ditadura da razão instrumental analítica, principal responsável pela devastação da natureza, mediante a incorporação da inteligência emocional ou cordial que nos leva a envolvermo-nos com o destino da vida e da Terra, cuidando, amando e buscando o bem-viver.

O segundo é o fortalecimento mundial da economia solidária, da agroecologia, da agricultura orgânica, da bioeconomia e do ecodesenvolvimento, alternativas ao crescimento material via PIB.

O terceiro é o ecossocialismo democrático que propõe uma forma nova de produção com a natureza e não contra ela e uma necessária governança global.

O quarto é o biorregionalismo que se apresenta como alternativa à globalização homogeneizadora, valorizando os bens e serviços de cada região com sua população e cultura.

O quinto é obem viver dos povos originários andinos que supõe a construção do equilíbrio entre seres humanos e com a natureza à base de uma democracia comunitária e no respeito aos direitos da natureza e da Mãe Terra ou o Índice de Felicidade Bruta do governo do Butão.

O sexto é a sobriedade condividida ou a simplicidade voluntária que reforçam a soberania alimentar de todos, a justa medida e a autocontenção do desejo obsessivo de consumir.

O sétimo é o visível protagonismo das mulheres e dos povos originários que apresentam um nova benevolência para com a natureza e formas mais solidárias de produção e de consumo.

O oitavo é a lenta, mas crescente, acolhida das categorias do cuidado como pré-condição para realizar uma real sustentabilidade. Esta está sendo descolada da categoria desenvolvimento e vista como a lógica da rede da vida que garante as interdependências de todos com todos assegurando a vida na Terra.

O nono é penetração da ética da responsabilidade universal, pois todos somos responsáveis pelo destino comum nosso e o da Mãe Terra.

O décimo é o resgate da dimensão espiritual, para além das religiões, que consente nos sentir parte do Todo, perceber a Energia universal que tudo penetra e sustenta e nos faz os cuidadores e guardiães da herança sagrada recebida do universo e de Deus.

Todas estas iniciativas são mais que sementes. Já são brotos que mostram a possível florada de uma Terra nova com uma Humanidade que está aprendendo a se responsabilizar, a cuidar e a amar, o que afiança a sustentabilidade deste nosso pequeno Planeta.

Leonardo Boff

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Lá e aqui: comércio é igual

Nos Estados Unidos, após a matança de 27 pessoas feita por um jovem em uma escola, aumentou absurdamente a quantidade de pessoas comprando mochilas à prova de bala para estudantes.

Esta informação vinda dos Estados Unidos me fez lembrar de uma história que me contaram, que não sei se é verdadeira, mas que ajuda a pensar naquilo que está acontecendo no lado norte da America.

Havia um arrematante de leilão que em certa ocasião comprou um lote inteiro de guarda-sóis. Lógico que este tipo de comerciante busca sempre comprar com menor preço para depois vender com lucro razoável. 


Então este sujeito encaminhou-se até o litoral a fim de vender o lote de guarda-sóis. Conseguiu vender um e outro, mas não como gostaria de ter vendido, pois os comerciantes litorâneos não queriam comprar, pois já tinham seus estoques. 

Daí o arrematante teve a seguinte ideia: de contratar umas dez pessoas para que fossem até as lojas daquele lugar, para comprar guarda-sol de determinado modelo. Como as lojas não tinham aquele modelo solicitado pelos pseudo-clientes, acabavam não efetuando venda nenhuma. 

No dia seguinte o arrematante voltou às lojas e vendeu todo o seu lote de guarda-sóis. Elementar!

Voltando à notícia norte-americana, que se refere a venda de mochilas à prova de bala, com preço entre 300 e 500 dólares, podemos perceber a avidez comercial dos empresários de mochilas à prova de bala. Diante deste movimento comercial surge o círculo negativo da necessidade de segurança, isto é, quanto mais se reprime mais violência e mais lucro. E viva o mercado! E viva os aproveitadores! Bem, idolatrar o mercado não é coisa só dos norte-americanos. Isso sabemos fazer aqui no sul também!


Mauro Feijó




Art. 7, inc. IV da Constituição Federal de 1988

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;



A impressão que tenho é a de que este artigo está subtraído na Constituição dos governantes e dos políticos em geral, que existem duas Constituições, uma dos parlamentares e outra da sociedade. Os parlamentares não conhecem este artigo e, se conhecem, o ignoram totalmente, senão vejamos:

Em tempo: eles conhecem sim, afinal eles usam muito esse artigo nas promessas feitas em campanhas políticas ou quando estão em oposição à determinado partido que esteja no governo.

Atualmente o salário pago à presidenta Dilma Rousseff é de R$ 26.723,13. Aliás, igual valor recebem o vice-presidente, ministros de estado, senadores, deputados federais e também os ministros do Supremo Tribunal Federal.

A Constituição Federal, a mesma do artigo supra citado, estabelece que os deputados estaduais devem ter subsídios equivalente a 95% dos recebidos por deputados federais.

Importante dizer que no último projeto de aumento de subsídios, que ampliou ainda mais o abismo entre parlamento e a sociedade, o percentual de aumento aplicado aos subsídios dos parlamentares foi de 62% e mais de 130% para presidente e ministros.

Já o salário mínimo que acabou de ser reajustado, aumentou em R$ 56,00 (9%), ficando em R$ 678,00. Vinte milhões de aposentados e 1,4 milhões de trabalhadores receberão esse mínimo durante o ano de 2013.

O DIEESE informa que o salário mínimo constitucional deveria ser de R$ 2.514,00, isto é, quatro vezes mais que os insuficientes R$ 678,00, já aumentado em 56,00 neste início de ano.

A gestão petista garantiu o aumento do salário mínimo neste início de ano, alegou ser imprescindível para qualquer cidadão e que vem sendo valorizado desde 2008, quando o ex-presidente Lula assumiu o governo.

Diante desses dados, convido o leitor (a) deste blog para analisá-los, considerando o que consta da Constituição Federal, conforme artigo já referido.

No meu entendimento, os brasileiros devem reclamar muito dos baixos salários, pois o salário mínimo é aviltante, não atende às necessidades básicas das pessoas e está muito longe disso. Desse jeito jamais haverá distribuição de renda no Brasil, temos de lutar contra isso. Lutar por mais igualdade e o combate à pobreza.

Mauro Feijó


Fontes: Constituição/1988; globo.com; adital; pt.jusbrasil.com

sábado, 5 de janeiro de 2013

2013: coragem para se renovar

Há mais de quinze anos atrás publiquei no Jornal do Brasil, hoje existindo apenas pela internet online, um artigo com o título "Rejuvenescer como águias”. Relendo aquelas reflexões me dei conta de como elas são ainda atuais e adequadas aos tempos maus sob os quais vivemos e sofremos. Retomo-as para alimentar nossa esperança enfraquecida pelas ameaças que pesam sobre a Terra e a Humanidade. Se não nos agarrarmos a alguma esperança, perdemos o horizonte de futuro e corremos o risco de nos entregarmos ao desamparo imobilizador ou à resignação estéril.

Neste contexto lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrânea sobre o rejuvenescimento das águias.

De tempos em tempos, reza o mito, a águia, como a fênix egípcia, se renova totalmente. Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então as penas se incendeiam e ela toda começa a arder. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu e se lança qual flecha nas águas frias do lago. E o fogo se apaga. Mas através desta experiência de fogo e de água, a velha águia rejuvenesce totalmente: volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Seguramente este mito constitui o substrato cultural do salmo 103 quando diz:”O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma águia”.

E aqui precisamos revisitar C.G. Jung que entendia muito de mitos e de seu sentido existencial. Segunda esta interpretação, fogo e água são opostos. Mas quando unidos, se fazem poderosos símbolos de transformação.

O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões masculinas no homem e na mulher. A água, ao contrário, a terra, o inconsciente e as dimensões femininas no homem e na mulher.

Passar pelo fogo e pela água significa, portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ninguém ao passar pelo fogo ou pela água permanece intocado. Ou sucumbe ou se transfigura, porque a água lava e o fogo purifica.

A água nos faz pensar também nas grandes enchentes como conhecemos em 2010 nas cidades serranas do Estado do Rio. Com sua força tudo carregaram, especialmente o que não tinha consistência e solidez. São os infortúnios da vida.

E o fogo nos faz imaginar o cadinho ou as fornalhas que queimam e acrisolam tudo o que é ganga e não é essencial. São as notórias crises existenciais. Ao fazermos esta travessia pela "noite escura e medonha”, como dizem os mestres espirituais, deixamos aflorar nosso eu profundo sem as ilusões do ego. Então amadurecemos para aquilo que é em nós autenticamente humano e verdadeiro. Quem recebe o batismo de fogo e de água rejuvenesce como a águia do mito antigo.

Mas abstraindo das metáforas, que significa concretamente rejuvenescer como a águia? Significa entregar à morte todo o velho que existe em nós para que o novo possa irromper e fazer o seu curso. O velho em nós são os hábitos e as atitudes que não nos engrandecem: a vontade de ter razão e vantagem em tudo, o descuido consigo mesmo, com a casa, com nossa linguagem e com o desrespeito para com a natureza, bem como a falta de solidariedade para com os necessitados, próximos e distantes. Tudo isso deve ser entregue à morte para podermos inaugurar uma forma de convivência com os outros que se mostre generosa e cuidadosa com a nossa Casa Comum e com o destino das pessoas. Numa palavra, significa morrer e ressuscitar.

Rejuvenescer como águia significa também desprender-se de coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas mas que lentamente, com o passar dos anos, se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar um caminho para o futuro. A crise atual perdura e se aprofunda porque os que controlam o poder tem conceitos velhos, incapazes de oferece respostas.

Rejuvenescer como águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. Não é isso que nos propomos a cada novo ano?

Que o ano de 2013 que se inaugura, seja oportunidade de perguntar o quanto de galinha existe em nós que não quer outra coisa senão ciscar o chão e o quanto de águia há ainda em nós, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente com os tropeços e as crises da vida e buscar um novo paradigma de convivência.

E não podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que sempre nos acompanha e que move o inteiro universo. Ela nos habita, nos anima e confere permanente sentido de lutar e de viver.

Que o Spiritus Creator nunca nos falte!

Adital - Leonardo Boff

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Incerteza

A incerteza é - com certeza - uma das sensações que mais perturba a tranquilidade da mente humana. A pessoa pode estar tranquila, sossegada, com a vida sob controle e de repente, algo que não tem nada a ver com ela acontece, e a repercussão deste fato acaba mexendo com a vida dela, obrigando ela a fazer escolhas que não estavam em seus planos.

A pessoa programa a sua vida a cada passo, imagina e idealiza como quer que as coisas aconteçam, programa detalhadamente o desfecho das coisas e, quando menos espera, a surpresa, a desilusão bate à sua porta, por precisar reencaminhar situações que não estavam planejadas.

Claro que o imponderável faz parte da vida e por isso está cheia de imprevisões. Tendo consciência disso passamos a ter a certeza de que tudo está sempre mudando. Até aí tudo bem, é assim mesmo que as coisas acontecem, o imprevisível é inerente à vida.

Mas a incerteza que quero sublinhar é aquela que toma conta da cabeça da pessoa quando ela não sabe, por exemplo, o que fará depois das férias quando retornar ao trabalho, sabendo que não retornará para o cargo que ocupava antes das férias e não sabendo qual cargo ocupará depois das férias. Portanto, essa é uma incerteza que angustia porque não permite à pessoa projetar devidamente o seu retorno ao trabalho. Esse tipo de incerteza é que abala e intranquiliza o ser humano.

Para uma pessoa disciplinada e ordenada, que planeja a condução de sua vida profissional, que estuda e pesquisa para que os melhores resultados sejam atingidos, tem nesse tipo de incerteza, um prejuízo mental enorme, pois sente a angústia de não poder vislumbrar com tranquilidade os seus próximos dias na esfera profissional. Nessa situação, o prejuízo é ainda maior porque também repercute no gozo e aproveitamento das férias.

Ao refletir sobre essa situação de incerteza, não faço uma queixa, apenas quero referir o quanto somos existencialmente frágeis diante do inusitado, do imponderável, pois quase sempre o novo nos assusta. Portanto, uma antítese que se faz necessário diante desta situação de angústia causada pela incerteza, é crer intensamente que o inesperado, que situações conflitantes e difíceis não chegam por acaso, mas pela vida que se mexe permanentemente e, sendo assim, nos dá oportunidades para o desenvolvimento e amadurecimento pessoal.

Mauro Feijó

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Felicidade

Sem dúvida a manifestação de "feliz ano novo" foi a expressão mais utilizada nesses últimos dias, devido a troca de anos. O mundo nos dois hemisférios comemora essa passagem e, em várias línguas e culturas diferentes, as pessoas se desejaram feliz ano novo.

Se pudéssemos enxergar o conceito de felicidade que está na cabeça de cada pessoa, para que pudéssemos de fato perceber o que cada pessoa está desejando para a outra, relativo à felicidade, certamente seria um exercício muito interessante. Pensemos um pouco sobre isso...

Para o velho filósofo Aristóteles, felicidade é o bem maior a que todos almejamos, se chega a ela pelo exercício da virtude e não da posse. Mas aonde buscar esse bem, como identificá-lo, como saber que é um bem e, que uma vez alcançado, seja o bem maior?

Para o budista a felicidade não se limita a umas poucas sensações agradáveis, e sim uma profunda sensação de florescer que surge em uma mente excepcionalmente sadia;

Para os cristãos, Jesus ensinou nas bem aventuranças, que a felicidade não depende daquilo que possuímos, mas daquilo que somos. Que a felicidade não é trazida de fora e sim que nasce na alma do verdadeiro cristão;

Já a psicologia relaxa e diz que a felicidade não é permanente porque não dá para estar bem o tempo todo;

Para a publicidade e toda a parafernália comercial dos dias modernos, a felicidade resulta da soma dos prazeres oriundos do consumo, tais como: aquele carro novo, condomínio de luxo, roupas de grife, aparelhos sofisticados, frequentar casas badaladas, estar na moda, etc.

O psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica Carl Gustav Jung disse certa vez o seguinte:

"Tenho visto as pessoas tornarem-se freqüentemente neuróticas quando se contentam com respostas erradas ou inadequadas para as questões da vida. Elas buscam posição, casamento, reputação, sucesso externo ou dinheiro, e continuam infelizes e neuróticas mesmo depois de terem alcançado aquilo que tinham buscado. Essas pessoas encontram-se em geral confinadas a horizontes espirituais muito limitados. Sua vida não tem conteúdo ou significado suficientes. Se têm condições para ampliar e desenvolver personalidades mais abrangentes sua neurose costuma desaparecer."

Portanto na contramão do consumismo, concordo com Jung, que a felicidade pode ser desejada e alcançada, mas ela não se encontra nos bens oferecidos pelo mercado, pois esses são finitos e a vida plena está muito além desses...

E para você, o que é felicidade?

Mauro Feijó


Renovar o ano novo

O mundo inteiro faz festas de ano novo. A maioria da humanidade segue o calendário ocidental e festejam o 1º de janeiro. Mesmo os habitantes do hemisfério sul, onde o solstício do inverno ocorre em junho e não no final de dezembro celebram as festas de ano novo junto com os povos do norte. Judeus, islamitas, chineses e outros, têm calendários próprios, mas, nesses dias de festa, se unem à maioria da humanidade e celebram conosco o ano novo.

As culturas antigas valorizavam muito o símbolo do ano novo. A depender do clima, era o reinício do ciclo agrícola. Mesmo em meio à pobreza ou a dificuldades da vida, o ano novo sempre recorda que todos nós temos dentro de nós o forte apelo interior para nos renovar permanentemente. Mesmo em culturas nas quais os mais velhos têm lugar de destaque, todo mundo desejaria ser sempre capaz de se renovar. Em algumas tribos, se costumavam queimar roupas usadas no ano anterior e vestir roupas novas, como símbolo da vida nova que se desejava viver. No Israel antigo, a noite de ano novo era marcada por um culto no qual, em nome de Deus, se fazia um sorteio de terras de modo que a terra fosse, a cada ano, novamente repartida entre as tribos.

Hoje, em uma sociedade que domina a eletricidade, o dia e a noite, assim como a escuridão do inverno ou a claridade do verão já não marcam mais o tempo como antigamente. Entretanto, luz e trevas permanecem símbolos de processos interiores e, no mundo inteiro, as luzes se apagam no momento do ano novo para deixar que uma luz nova nos ilumine e os fogos artísticos iluminem a noite. Então, as pessoas se abraçam e se desejam feliz ano novo. Quando vivemos o amor, a generosidade, a solidariedade e a partilha de vida, então, o nosso desejo de que o mundo caminhe para melhor se torna mais eficaz. Não temos força para mudar organizações sociais e sistemas complexos e baseados em leis estruturais, mas podemos contribuir para que se criem as condições necessárias para transformar as leis e sistemas e tornar o mundo mais justo e fraterno.

Se você quiser, de fato, que este ano seja um tempo de profunda renovação da sua vida e isso repercuta bem para as pessoas ao seu redor e para todo o universo, refaça neste início de ano novo o compromisso de, a cada dia, consagrar um tempo, por mínimo que seja, de gratuidade e interioridade para renovar um diálogo verdadeiro e profundo consigo mesmo/a, comprometer-se em ser cada vez mais uma pessoa de diálogo com os outros seres humanos, inclusive com aquelas pessoas que pensam e agem a partir de valores que não são os seus e você não aprova. O diálogo mais fecundo é justamente com os que pensam e atuam diferentemente de nós. Além disso, procure de todos os modos intensificar a comunhão solidária com a terra, a água e todos os seres vivos do planeta. Faça isso e a bênção deste ano novo se realizará em você e, a partir de você, no mundo inteiro. Você constatará, então, como se tornarão verdadeiras e fecundas em sua vida, assim como para os que convivem com você, as palavras da antiga bênção irlandesa: "O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas onde moras. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

Marcelo Barros - monge beneditino

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Empurrando o ano

Sabe quando você precisa empurrar um carro para ele pegar no tranco, seja por bateria com pouca carga ou algum problema na ignição ou ainda qualquer outro motivo. O carro ameaça a pegar e não pega... Daí alguém diz: vamos empurrar mais um pouco até aquela descida, quando ele embalar bem, tenta de novo que ele vai pegar. Assim feito, de repente o carro pega e pronto, vai embora...

Faço essa imagem do carro pifado para me referir a este novo ano que iniciou ontem. Não quero dizer que se trata de um ano com problemas, afinal está só iniciando. Mas este "iniciando" é que quero associar à figura do carro pifado, pois certamente neste período de férias e veraneio, o ano precisará ser empurrado até o Carnaval (12/02), ou melhor, até a quarta-feira de cinzas, que é quando os súditos de momo de acomodam.

Como já é cultural aqui no nosso país, com a chancela dos políticos e governantes, que as coisas só iniciem depois do carnaval, então temos um período bem extenso para empurrar o ano de 2013, a exemplo do que já aconteceu em anos pretéritos.

Já existe até um chavão popular que diz: o ano só começa depois do carnaval. E como todo chavão tem uma carga ideológica muito forte, logo a sociedade se resigna e aceita que "tudo" fique para depois do carnaval. Espero que os mais "folieiros" não convençam nossos políticos a apresentarem algum tipo de decreto ou lei, que faça com que venhamos a comemorar o início do ano só depois do carnaval, porque daí, certamente outra comemoração de passagem seria necessária e teríamos que empurrar o ano até a próxima descida!

Mauro Feijó