FILOSOFIAS Et cetera

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Escolha a língua

sábado, 1 de dezembro de 2012

Medo do desconhecido


Contam as lendas que um dia um espião foi preso e condenado à morte pelo general do exército árabe.Sua sentença era o fuzilamento, mas o general tinha um hábito diferente e sempre oferecia ao condenado outra opção. E essa outra opção era escolher entre enfrentar o pelotão de fuzilamento ou entrar por uma porta preta.Com a aproximação da hora da execução o general ordenou que trouxessem o espião à sua presença para uma breve entrevista.Diante do condenado, fez a seguinte pergunta:- O que você quer - a porta preta ou o fuzilamento?A escolha não era fácil, por isso o prisioneiro ficou pensativo e, só depois de alguns minutos, deu a resposta:- Prefiro o fuzilamento.Depois que a sentença foi executada o general virou-se para o seu ajudante e disse:- “Assim é com a maioria dos homens. Preferem o caminho conhecido ao desconhecido”.- E o que existe atrás da porta preta? Perguntou o ajudante.- A liberdade, respondeu o general. E poucos foram os homens corajosos que a escolheram.Essa é uma das mais fortes características do ser humano: optar sempre pelo caminho conhecido, por medo de enfrentar o desconhecido.Geralmente as pessoas não abrem mão da acomodação que uma situação previsível lhes oferece. É mais fácil ficar com a segurança do que já se sabe do que aventurar-se a investigar novos caminhos.Pense nisso! Nem sempre o caminho já batido por muitos é o caminho que nos conduzirá à liberdade. Nem sempre nadar a favor da correnteza é indício de chegada a um porto seguro.Às vezes, é preciso abrir trilhas ainda desconhecidas da maioria, mesmo que tenhamos que seguir só. Por vezes, é preciso nadar contra a corrente, optar pela porta estreita, para que se possa vislumbrar um mundo livre, feliz, sem constrangimentos que tolhem a liberdade e infelicitam os seres.


Fábula oriental

Muitas pessoas preferem a condição de colono do que a de pioneiro, pois caminhar por onde outros já caminharam é muito mais fácil e cômodo. Subverter essa situação é a garantia de se tornar alguém mais empreendedor, mais ousado e menos dependente de outros.

Mauro Feijó

Dois monges


Dois monges em peregrinação iam passando por um rio. Lá avistaram uma menina vestida com toda a elegância, obviamente sem saber o que fazer, já que o rio estava alto e ela não queria estragar suas roupas.Sem mais cerimônias, um dos monges levou-a nas costas, atravessou-a e depositou-a em solo seco do outro lado. Então os monges continuaram seu caminho. Porém o outro monge, depois de uma hora, começou a reclamar: —"Com certeza não é certo tocar uma mulher; é contra os mandamentos ter contato íntimo com mulheres. Como você pode ir contra a lei dos monges?O monge que carregara a menina seguia em frente em silêncio, mas finalmente observou: — "Eu a deixei no rio há uma hora.Por que você ainda a está carregando?"

Fábula oriental

Escrevendo na areia


Dois grandes mercadores árabes, de nomes Amir e Farid, eram muito amigos e sempre que faziam suas viagens para um mercado onde vendiam suas mercadorias, iam juntos, cada qual com sua caravana, seus escravos e empregados. Numa dessas viagens, ao passarem às margens de um rio caudaloso, Farid resolveu banhar-se, pois fazia muito calor. Em dado momento, distraindo-se, foi arrastado pela correnteza. Amir, vendo que seu grande amigo corria risco de vida, atirou-se às águas e, com inaudito esforço, conseguiu salvá-lo.Após esse episódio, Farid chamou um de seus escravos e mandou que ele gravasse numa rocha ali existente, a seguinte frase:"Aqui, com risco de sua própria vida, Amir salvou seu amigo Farid". Ao retornarem, passaram pelo mesmo lugar, onde pararam para rápido repouso.Enquanto conversavam, tiveram uma pequena discussão e Amir, alterando-se, esbofeteou Farid. Este,aproximou-se das margens do rio e, com uma varinha, assim escreveu na areia:"Aqui, por motivos fúteis, Amir esbofeteou seu amigo Farid". O escravo que fora encarregado de escrever na pedra o agradecimento de Farid, perguntou-lhe:- Meu senhor, quando fostes salvo, mandaste gravar aquele feito numa pedra e agora escreveis na areia o agravo recebido. Por que assim o fazeis?Farid respondeu-lhe:- Os atos de bondade, de amor e abnegação devem ser gravados na rocha para que todos aqueles que tiverem oportunidade de tomar conhecimento deles, procurem imitá-los. Ao contrário, porém, quando recebemos uma ofensa, devemos escrevê-la na areia para que desapareça, levada pela maré ou pelos ventos, afim de que ninguém tome conhecimento dela e, acima de tudo, para que qualquer mágoa desapareça prontamente no nosso coração...


Fábula oriental

Aquecimento global. O aumento dos mares supera todas as previsões da ONU


As águas dos mares no planeta crescem aceleradamente. Com um avanço de 60% mais rápido do que o estimado por especialistas das Nações Unidas, em seu relatório de 2007.
A informação é divulgada em um estudo que acaba de ser publicado em "Environmental Researchs Letters”, revista britânica especializada na matéria, e que foi retomado nas últimas horas por diversos meios de informação internacionais.
As revelações preocupantes coincidem com a realização, em Doha, capital de Catar, da 18ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Representantes de 190 países reunidos desde o dia 26/11/12 até o dia 7/12/12, devem avaliar o futuro do Protocolo de Kyoto e avançar os conteúdos do que deveria ser um acordo amplo sobre o clima previsto para 2015.
Crescem as águas
O estudo da publicação especializada sustenta que os mares poderiam crescer em torno de 1 metro até o fim do século, superando significativamente as cifras entre 18 e 59 centímetros antecipadas pelo Grupo de Especialistas sobre Clima da ONU (Giec), em seu relatório de 2007.
Caso se perpetue o atual nível de aquecimento global e de crescimento das águas, regiões inteiras do globo, situadas a menos de 1 metro sobre o nível do mar, como por exemplo Bangladesh, estariam condenadas a desaparecer. Concentrações urbanas como a cidade de Nova York poderiam enfrentar situação semelhante à recentemente vivida devido à passagem do furacão Sandy.
Desastre ecológico, conflitos crescentes pelos recursos naturais e milhões de refugiados climáticos seriam parte desse catastrófico cenário antecipado pelo estudo da revista britânica.
Conferência de Doha
Os sinais de alerta se multiplicam nas primeiras jornadas da Conferência sobre a Mudança Climática de Catar, inaugurada no passado 26 de novembro.
As vozes mais realistas ressaltam a preocupação crescente em não conseguir controlar o aquecimento climático em 2 graus, máxima suportável segundo hipóteses de especialistas.
Case se mantenha o ritmo crescente atual de aquecimento sem que se tome medidas drásticas de controle da emissão de gases, se levanta a hipótese de um aumento de entre 3 e 5 graus até o final do século.
Entre aquecimento global e aumento acelerado do nível do mar, a Conferência de Catar se confronta com decisões radicais. A aposta é tentar um novo acordo global que seria assinado em 2012 e que entraria em vigor a partir de 2020, atualizando e substituindo o Protocolo de Kyoto (1997) e Kyoto 2.

Fonte: adital

Consumo infantil




Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade
[A publicação traz informações preocupantes, que devem estar ao alcance de pais e educadores. Entre elas, o fato de que o público infantil passa mais de cinco horas por dia na frente da televisão, de acordo com dados do Ibope. E que 64% de todos os anúncios veiculados nas emissoras de TV, monitoradas às vésperas do Dia das Crianças de 2011, foram direcionados ao público infantil, de acordo com o Instituto Alana.
Ninguém nasce consumista. O consumismo é um hábito que se forma a partir de valores materialistas e que traz sérios problemas para a sustentabilidade. É possível mudar este quadro].
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Cartilha ensina pais a lidar com consumo infantil
Brasília - Antes de sair de casa com a filha de 6 anos, a enfermeira Yvone Lima avisa: "Não vou poder comprar nada para você hoje”. No entanto, o aviso não surte efeito e, na primeira loja em que entram, a pequena Bianca Lima escolhe dois brinquedos. Pensado em situações como essa o Instituto Alana em parceria com o Ministério do Meio Ambiente lançaram a cartilha Consumismo Infantil: na Contramão da Sustentabilidade. O livreto apresenta dicas para pais e educadores lidarem com as crianças, cada vez mais expostas aos apelos da mídia para o consumo.
A cartilha faz parte do Projeto Criança e Consumo desenvolvido desde 2006 pelo Instituto Alana, que tem agora o apoio do Ministério do Meio Ambiente. Ao todo, serão distribuídos 95 mil exemplares da cartilha nos Procons e nas escolas pelo Ministério da Educação. O material também esta disponível nosite do Ministério.
A secretária de Articulação do Ministério, Samyra Crespo, explicou que a ideia de apoiar o projeto surgiu da necessidade de se manter um trabalho de conscientização infantil sobre o consumo sustentável.
"O Ministério não poderia ficar de fora de um projeto de instrução para essas crianças. A criança brasileira é a que mais tempo permanece em frete à televisão: são cinco horas por dia. Consequentemente, essa criança fica mais exposta aos anúncios e a publicidade, que estimulam o consumir pelo consumir”, destaca a secretária.
Para a secretária nacional do Consumidor, Juliana Pereira, é preciso modificar esse quadro do consumismo infantil. "A criança aprende desde cedo que ela só é alguém se tiver o tênis de marca, ou o celular do momento. É isso que temos de mudar”, explica.
A Yvone, mãe da Bianca, contou que, às vezes, acaba cedendo aos pedidos da filha. "Sempre que saímos, e ela vê um produto com a cara de um boneco, um palhaço, ela quer. Vou esperar para ver se essa cartilha me ensina a lidar melhor com essas situações”, disse.
A coordenadora do Instituto Alana, Gabriela Vuolo, salientou a importância da parceria com o ministério para a ampla divulgação do projeto a fim de amenizar os efeitos da publicidade excessiva na infância. "Crianças de 12 anos ainda não têm discernimento para diferenciar entretenimento de publicidade. Por isso, é importante a participação direta dos pais, professores e educadores nessa fase”.
Para dimensionar os impactos da publicidade na infância, o Ministério da Saúde informou que 95% dos anúncios alimentícios feitos no país se referem a produtos não saudáveis. O dado, de acordo com o ministério, pode ter ligação com o fato de mais da metade das crianças matriculadas no ensino básico estarem acima do peso.

Fonte: Agência Brasil  EBC - Empresa Brasil de Comunicação

Experiência latino-americana apoiará o protagonismo africano: Foro Social Mundial das Migrações Johanesburgo, 2014


Paulo Illes e Patricia Gainza
Articulação Sul-americana Espaço Sem Fronteiras – ESF

Manila, 29 de novembro de 2012.

É a primeira vez que o Foro Social Mundial de Migrações acontece no continente asiático. Atualmente existem mais de 7,4 milhões de filipinos vivendo em 170 países ao redor do mundo. Filipinas, sem dúvida é um dos maiores provedores de mão de obra, de homens e mulheres, para setores diversificados. No Brasil e na América do Sul eles estão, sobretudo nas embarcações, serviços mar adentro.
O país, que já foi denominado "Islas de Oro”, durante a colonização espanhola, tem dado uma contribuição importante para a reflexão sobre os direitos humanos de trabalhadores e trabalhadoras imigrantes ao redor do Globo.
Foram os imigrantes filipinos, na Itália, os primeiros a se organizar contra a exploração num dia 18 de dezembro, data escolhida, posteriormente, pelas Nações Unidas para celebrar o Dia Mundial dos Imigrantes.
Olhares do Sul: Novo Paradigma Para as Migrações?
O Foro Social Mundial de Migrações apresentou denuncias e construiu um posicionamento político no âmbito da assembleia de movimentos sociais, definiu uma agenda global de luta, condenou o modelo de desenvolvimento, apontou alternativa, denunciou as constantes violações aos direitos humanos, mais também apontou, no contexto atual, um reconhecimento aos esforços de países do sul do continente americano, como Argentina e Uruguai que adotaram normativas de migração, nas quais reconhecem o papel do imigrante como sujeito de direitos.
Também o Brasil foi mencionado, pois apesar de ainda possuir uma legislação focada na segurança nacional, tem adotado políticas de integração dos imigrantes e de não criminalização por sua condição migratória. Realidades que chamam atenção diante de um contexto de perda de direitos, inclusive para imigrantes permanentes no continente europeu, xenofobia, discriminação, prisões e deportações em massa.
Estaríamos diante de um novo paradigma? Será esta visão que se tem desde outras partes do globo correta e até que ponto? São questões que tentamos responder num workshop realizado sobre Migração e Modelos Alternativos, juntamente com organizações de África, Europa, Ásia e América Latina.
A reflexão apontou como marco o Tratado da Unasul (União das Nações Sul-americanas), que a diferença de acordos anteriores parte de uma visão política da região, entendendo a integração social, a livre circulação e a cooperação como fundamental para o desenvolvimento e diminuição das assimetrias. Ao mesmo tempo não se sobrepõe aos avanços em direitos humanos, integração social e cidadania, conquistados no marco da Comunidade Andina de Nações (CAN) e do Mercado Comum do Sul (Mercosul).
No continental existe de fato uma efetivação dos direitos básicos, nas mesmas condições da cidadania de origem. No entanto, cabe chamar atenção sobre as novas estratégias rumo a uma politica migratória que aproveita o novo contexto internacional, onde as antigas políticas seletivas e de "branqueamento” se apresentam dissimuladas nas novas propostas de políticas de imigração qualificada. Nesse sentido o Foro chamou atenção para que a sociedade civil esteja alerta, organizada e mobilizada para não permitir qualquer retrocesso.
No marco da construção global do movimento, o Foro após ter passado por América Latina, Europa, Ásia, estará por primeira vez em 2014, no continente africano. A insipiente sociedade civil africana, especialmente a sul-africana terão a oportunidade de continuar este processo construindo um perfil próprio durante os próximos dois anos.
O atual contexto da imigração intra e extracontinental faz necessário um protagonismo da parte dos movimentos sociais de imigrantes africanos na busca de novas oportunidades e horizontes, dado o atropelo aos direitos humanos que sofrem a população africana em mobilidade.
Nesse sentido, além de construir um processo novo é um excelente momento para convergir com a longa experiência de resistência e construção dos movimentos sociais na América Latina e suas conquistas.
Emerge, no entanto, a necessidade de uma agenda propositiva que integre não somente as redes que já vem atuando no contexto do Foro Social Mundial de Migrações, mais também de uma abertura para a inserção de novos atores.
Nesse sentido a Declaração de Manila ao colocar ênfase na capacidade de incidência aponta caminhos para um posicionamento político da sociedade civil, tanto no âmbito global, como regional e local.
A Declaração estará disponível no site http://spanish.wsfm2012.org/ a partir de 30 de novembro, nas versões inglesa, espanhola e francesa.

Fonte: adital

O preconceito cultural e religioso é inadmissível



José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília

Está circulando na internet a notícia de que um grupo de 13 estudantes evangélicos da escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima, em Manaus (AM) se recusou a fazer um trabalho sobre a cultura afro-brasileira. De acordo com a notícia os estudantes alegaram que fazer um trabalho sobre a cultura afro-brasileira seria "apologia ao 'satanismo e ao ‘homossexualismo'” e que isso contraria a crença que seguem. Segundo informações dos jornais, pastores e os próprios pais orientaram os alunos a fazerem um trabalho sobre as missões evangélicas na África, mas a escola não aceitou a troca do tema. No meu entender a escola agiu corretamente.
Ainda segundo as notícias circuladas na internet, os alunos evangélicos fizeram protestos. Além disso, segundo depoimento de professores, este grupo de alunos se recusa a ler obras clássicas como O Guarani de José de Alencar, Macunaíma de Mario de Andrade e Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire. Os alunos evangélicos alegaram motivos religiosos, afirmando que esse tipo de atividade contradiz a fé cristã que professam.
A notícia poderia passar despercebida se não fosse mais um exemplo do crescente fundamentalismo religioso na sociedade brasileira, o qual vem acompanhado de preconceitos, discriminação, violência e intolerância cultural e religiosa. Por essa razão a questão merece uma reflexão, ainda que breve.
No caso noticiado percebe-se antes de tudo uma profunda ignorância acerca do que sejam de fato as culturas religiosas afro-brasileiras e suas respectivas expressões religiosas. Confundir culturas afro-brasileiras com "satanismo” e "homossexualismo” é, no mínimo, manifestação de total burrice e de escrachada ignorância. Os pastores e pais destes estudantes deveriam sentir vergonha ao alimentar este tipo de coisa.
Em segundo lugar, a atitude dos estudantes evangélicos, patrocinada pelos pais e abençoada pelos pastores, expressa um profundo e vergonhoso preconceito contra as culturas afro-brasileiras. É homofóbica e fere regras elementares da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Federal do Brasil. Tal comportamento revela quão forte é ainda a discriminação contra os negros e suas magníficas expressões culturais. Atitudes como esta mostram que, em relação ao povo negro, continuamos com a mesma mentalidade dos tempos da senzala. O que é vergonhoso e criminoso.
Além do mais, o comportamento destes estudantes evangélicos fere os princípios mais elementares do cristianismo, que eles afirmam defender. Revela claramente que os pastores da Igreja a que pertencem não conhecem a Bíblia e fazem uma estúpida leitura fundamentalista dos textos sagrados cristãos. Esquecem, por exemplo, de que o amor ao próximo é o distintivo do discípulo de Jesus: "Se vocês tiverem amor uns para uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35). E, segundo Jesus, este amor não pode ter fronteiras e nem limites. O mandamento do amor ao próximo (Jo 15,12) não admite exclusão de ninguém, nem mesmo dos inimigos: "amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês!” (Mt 5,44), Ora, se a radicalidade cristã chega a pedir que se ame o inimigo, a atitude desses estudantes contra a cultura afro-brasileira – que não é inimiga do cristianismo – é uma negação plausível da essência do cristianismo. Demonstra, pois, verdadeira ausência do espírito cristão e total desconhecimento dos textos bíblicos mais elementares.
Por trás desta atitude está ainda a pedagogia do medo que caracteriza os grupos religiosos fundamentalistas. Medo de aproximar-se, de conhecer e de se relacionar com o diferente. Na pedagogia do medo se esconde a fragilidade de uma experiência religiosa que é incapaz de dar conta de si mesma. Por isso prefere afastar os que são diferentes, com medo de que eles possam descobrir a fragilidade da fé. Caberia, então, aqui a seguinte pergunta feita pela Bíblia cristã: "Quem lhes fará mal, se vocês se empenham em fazer o bem?” (1Pd 3,13). Além do mais, diz ainda a Bíblia cristã, quem tem medo é alguém que ainda não descobriu a essência do cristianismo, não descobriu o amor: "No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,18).
Jesus não teve medo de se relacionar com o diferente. Ele quebrou as regras e os padrões religiosos relacionando-se com liberdade com pessoas que, na cultura de sua época e de sua religião, eram tidas como impuras. Apenas alguns exemplos. Ele vai almoçar na casa do "desclassificado” Levi, pecador público bem conhecido, e lá encontra outras pessoas de "má fama” (Mc 2,15-17). Entra na casa de Zaqueu (Lc 19,1-10). Puxa conversa com uma mulher do povo samaritano contra o qual os judeus tinham grande preconceito (Jo 4,7-42). Atravessa o lago e vai para a Decápole, região pagã e desclassificada pelos judeus (Mc 5,1-20). Durante uma refeição na casa de um fariseu deixa-se tocar por uma prostituta (Lc 7,36-50). Atende ao pedido do oficial romano (Mt 8,5-13) e elogia a fé de uma mulher fenícia (Mc 7,24-30). Portanto, quando estes estudantes se recusam a fazer um simples trabalho sobre as culturas afro-brasileiras estão simplesmente recusando-se a agir como seguidores de Jesus. Revelam a existência de uma esquizofrenia.
Quanto à recusa de ler textos da literatura brasileira, isso expressa apenas mais uma característica do fundamentalismo religioso que, infelizmente, marca algumas Igrejas cristãs: o dualismo maniqueísta. A atitude maniqueísta tende a separar as realidades do mundo, considerando algumas coisas ruins e outras boas. As ruins geralmente são as "coisas materiais” e as boas são as "coisas espirituais”. Também aqui há uma tremenda contradição, pois Jesus não classificava nada como bom ou como ruim. Aliás, dizia Jesus, não é o que vem de fora e entra numa pessoa que a torna impura, mas é aquilo que sai da pessoa que a pode contaminar (Mc 7,14-15). Portanto, segundo o mais genuíno ensinamento cristão, a leitura e o estudo de um simples romance não contamina ninguém. O problema não está no romance, mas na cabeça da pessoa que, na maioria das vezes, está repleta de imoralidade, maldade, malícia, devassidão e falta de juízo (Mc 7,20-23).
Não podemos, pois, aceitar de forma alguma atitudes preconceituosas como essa destes estudantes, uma vez que ferem os direitos humanos mais elementares, e são uma verdadeira afronta à dignidade da pessoa humana. Pelas leis brasileiras preconceitos como esses são crimes e precisam ser punidos dentro do rigor da lei. Não se pode ser conivente com isso. Além do mais, como acabamos de ver, negam a essência do cristianismo. A desculpa de motivos religiosos não cola; pelo contrário, revela profunda distância e ignorância do núcleo central da fé cristã.

Fonte: adital

Despertado pela mentira

Hoje acordei pensando na mentira, ué! Por que teria acordado pensando em tal conceito, o que haveria se sucedido em meu inconsciente durante a noite para que eu acordasse pensando em tal assunto? Fiquei "grilado", querendo entender isso... Vasculhei detalhadamente minha malha intelectiva para poder vislumbrar o porquê de ser despertado na companhia de pensamentos tão inquietantes. Comecei a elucubrar sobre o conceito. Para mim sempre foi muito tranquilo que a mentira não existe, a verdade sim, esta existe e deve ser perseguida permanentemente. Aprendi com minha mãe que ninguém perde por estar do lado da verdade. A pessoa poderá até se incomodar muito, mas não haverá prejuízo ético.

Voltando ao conceito da mentira, quero esclarecer melhor o que quis dizer quando referi que ela não existe. Filosoficamente falando, a mentira é o produto que advém ou que resulta da postura de uma pessoa mentirosa (alguém que não está na ou com a verdade por opção consciente), portanto a mentira é um estado de espírito que a pessoa assume frente a verdade. Se a pessoa conhece a verdade e escolhe não aderir a ela, não proclamá-la, logo esta pessoa é mentirosa, porque assume uma postura de negação à verdade.

Com muito clareza sobre o que é a mentira, passei a pensar nas relações interpessoais do cotidiano, todas elas, as familiares, as do trabalho, as de contingências e as casuais. Me dei conta que as relações todas são de poder e por isso, são motivadas e movimentadas por interesses diversos. Também me dei conta que muitas pessoas têm seu centro ético muito sólido, outras nem tanto. E que a mentira como resultado de posturas de algumas pessoas frente à verdade, sempre estará em nosso meio.

Mauro Feijó