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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pensar sobre pensar


Quando analisamos uma decisão que tomamos ou um pensamento que temos, realizamos um ato de metacognição. Roberto Lent aborda um estudo sobre essa característica humana de introspecção, e os mecanismos cerebrais que a geram.


Pensar sobre pensar
Neurocientistas chamam a capacidade humana de refletir sobre os próprios pensamentos de metacognição. É com essa introspecção que avaliamos a certeza de nossas decisões (Montagem: Júlia Dias Carneiro. Ilustração: Flickr.com/Graela – CC BY-NC-SA 2.0).
No cotidiano, deparamo-nos frequentemente com escolhas e decisões a tomar, com maior ou menor urgência e importância. Em quem devo votar? Que filme verei hoje? Que curso escolherei para o vestibular? Qual a resposta certa para a pergunta da prova?

Videojogos, neurojogos


Psicólogos americanos concluíram que os videogames de ação podem trazer benefícios cognitivos para os usuários e estimular a aprendizagem. Roberto Lent discute os resultados surpreendentes desse estudo e defende o uso desses jogos na educação.

Por: Roberto Lent
Publicado em 29/10/2010 | Atualizado em 29/10/2010
Videojogos, neurojogos
Ao contrário do que se poderia supor, os videjogos podem ser benéficos para as crianças e para os adultos: depende do conteúdo... (foto: Sean Dreilinger – CC 2.0 BY-NC-SA).
Pais e professores expressam sempre grande preocupação com a influência que as novas tecnologias de comunicação podem ter sobre o funcionamento do cérebro e o desempenho neuropsicológico das crianças.
Segundo os pessimistas, estamos à beira do apocalipse: assoladas pelo excesso de informação, pela atordoante exposição às novas mídias e pela inexorável superficialidade dos conteúdos transmitidos, nossas crianças e jovens tenderiam à deseducação, à agressividade e à falta de profundidade cultural.
Dispomos hoje de um acervo de possibilidades de acesso à cultura e à educação nunca antes imaginado
Não creio que seja assim. Nossos avós se preocuparam com a destruição do teatro pelo cinema, e nossos pais com o desaparecimento deste, ameaçado pela emergência fulminante da televisão.
Também imaginaram que os concertos de música ao vivo seriam substituídos pelas gravações em estúdio lançadas em discos de vinil e depois em CDs. Agora, nos preocupamos com o fim do livro impresso, prestes a ser enterrado pelos computadores e e-books...
Nada disso ocorreu. Ao contrário, as novas tecnologias se somaram às mídias mais antigas, e a humanidade dispõe hoje de um acervo de possibilidades de acesso à cultura e à educação nunca antes imaginado.
Kindle
A emergência de e-books como o Kindle, mostrado na foto, não ameaça os livros de papel: as duas tecnologias devem coexistir no futuro (foto: Phillip Torrone - CC 2.0 BY-NC-ND).

Separar o joio do trigo

Não é razoável culpar os formatos sem analisar seu conteúdo. Há livros bons e livros ruins, filmes educativos e outros que estimulam a agressividade e desagregação social. Do mesmo modo, há programas de TV de grande eficácia educacional, outros inócuos e outros ainda negativos. O formato é em princípio neutro: o conteúdo é que importa!
Não é razoável culpar os formatos sem analisar seu conteúdo
O seriado infantil Vila Sésamo foi analisado por educadores e psicólogos americanos há cerca de cinco anos, e a conclusão foi que tem uma influência positiva na alfabetização das crianças.
Por outro lado, o programa Teletubbiesprovocou o contrário: diminuição do vocabulário e das habilidades linguísticas das crianças telespectadoras. Duas iniciativas com a melhor das intenções, formatos semelhantes e resultados diametralmente opostos...
Vila Sésamo e Teletubbies
Dois programas com finalidades educativas, mas resultados opostos (imagens: reprodução).
Da mesma forma, os programas de computador idealizados para “exercitar o cérebro” de crianças e adultos aprimorando sua capacidade cognitiva podem não fazê-lo. Pior: eles podem até causar uma piora dos indicadores intelectuais dos usuários. Ao contrário, tecnologias criadas apenas para o entretenimento – como os videojogos de ação – podem causar benefícios inesperados.
É preciso, portanto, analisar caso a caso para separar o joio do trigo. E, como em todas as coisas, deve-se distinguir entre uso e sobreuso: comer é necessário e bom; comer demais pode causar dependência e obesidade.

Videojogos e aprendizagem

Partindo dessa ideia aberta e sem preconceito, um grupo de psicólogos americanos da Universidade de Rochester, liderados por Daphne Bavelier, analisou o impacto dos videojogos de ação sobre os mecanismos de aprendizagem e os possíveis determinantes cerebrais de sua ação. Os resultados foram surpreendentes.
O estudo foi feito em 23 rapazes com cerca de 20 anos de idade, divididos em dois grupos: jogadores regulares, que no ano anterior tinham utilizado videojogos de ação ao menos 5 horas por semana; e não usuários, que não tiveram qualquer prática no mesmo período.
Para definir “jogos de ação”, a equipe considerou aqueles que apresentam alta velocidade de eventos e imagens, grande exigência perceptual, cognitiva e motora, múltiplos focos de atenção (diferentes itens apresentados simultaneamente), imagens apresentadas nas bordas da tela e imprevisibilidade (surpresa) temporal e espacial.
Homem Aranha (videogame)
Cena do jogo 'Homem-Aranha: teia de sombras'. O estudo americano mediu como a aprendizagem é influenciada pelo uso dos jogos de ação, caracterizado por alta velocidade de eventos e imagens, grande exigência cognitiva e imprevisibilidade temporal e espacial, entre outros aspectos (imagem: reprodução).


Os 23 sujeitos foram submetidos a testes para identificar a direção de movimento predominante entre muitos estímulos visuais projetados simultaneamente em um monitor de computador. Eles deviam apertar um botão para indicar se o movimento predominante era para a direita ou para a esquerda. Os pesquisadores podiam variar a proporção de estímulos com movimento sincronizado, misturados a outros movendo-se em todas as direções.
Além disso, os participantes foram solicitados a identificar tons musicais puros de diferentes intensidades, misturados a um chiado constante como uma estação de rádio fora de sintonia. Nesse caso, os tons eram apresentados a um ouvido ou outro aleatoriamente, e os rapazes tinham que apertar os mesmos botões indicando o ouvido direito ou o esquerdo.
O resultado foi interessante: jogadores regulares e não usuários apresentavam igual precisão na identificação dos estímulos, tanto visuais como auditivos. Mas os primeiros eram muito mais rápidos no gatilho: apertavam o botão certo mais rapidamente que os não-usuários. Isso significa que têm maior agilidade de raciocínio e conseguem tomar decisões mais rapidamente.
Jogadores regulares tinham maior agilidade de raciocínio e conseguiam tomar decisões mais rapidamente
E atenção: o melhor desempenho dos jogadores regulares não se restringiu ao sentido da visão, modalidade ativada durante o jogo.
Mais do que isso, estendeu-se à audição, indicando uma transferência transmodal, no jargão técnico. Ou seja: usuários de videojogos de ação não treinam apenas a visão: aprendem as melhores estratégias para tomar decisões com rapidez e eficiência.
Mas será que o efeito se deve ao treinamento ou, ao contrário, os videojogadores são naturalmente selecionados por uma capacidade inata para processar mais eficientemente estímulos visuais e auditivos?
Essa pergunta foi também respondida pelos pesquisadores. O grupo de não usuários recebeu 50 horas de treinamento em videojogos e foi novamente testado depois dessa prática. Não deu outra. Desta vez o mesmo grupo de não usuários teve bom desempenho, tornando-se videojogadores como os rapazes do outro grupo.

Redes neurais e os circuitos envolvidos

Em situações reais, fora do aparato experimental, quando um macaco ou um ser humano visualiza nos lados do campo visual um estímulo em movimento, procura mover os olhos na direção do estímulo e acompanhar o seu movimento, para melhor discernir o que é. Há regiões no córtex cerebral dedicadas à identificação dos estímulos, outras de orientação do olhar, e as primeiras se ligam às segundas.
Os videojogos treinam habilidades cognitivas gerais, e não apenas restritas a uma modalidade sensorial
Esse circuito foi modelado pelo grupo de Rochester utilizando as famosas redes neurais, construções de programas de computador que simulam as operações dos neurônios conectados.
A simulação apoiou plenamente os resultados experimentais, pois indicou uma via de processamento de etapas sensoriais até a interpretação e a elaboração de uma resposta, seguindo curvas muito semelhantes às obtidas com os rapazes testados.
Nesse caso, a modelagem por computador sustentou a constatação mais surpreendente do experimento: os videojogos treinam habilidades cognitivas gerais, e não apenas restritas a uma modalidade sensorial. A pessoa aprende estratégias cognitivas, ou seja, aprende a aprender.

Neuroeducação à vista

Experimentos desse tipo trazem indicações importantes. Primeiro, as novas tecnologias de comunicação e entretenimento não são necessariamente boas ou más: é preciso estudar o seu efeito nas capacidades cognitivas dos usuários. Em segundo lugar: se as novas tecnologias podem ter efeitos positivos, por que não usá-las nos processos formais e informais de educação?
Por que não usar as novas tecnologias nos processos formais e informais de educação?
Videojogos poderiam ser criados com a intenção de educar, e não apenas entreter. Além disso, poderiam apresentar conteúdos menos tendentes à agressividade e à violência e mais voltados para os benefícios da solidariedade e da vida social integrada.
E, finalmente: o conhecimento das estratégias neurais empregadas nas tarefas cognitivas que realizamos a toda hora trará uma base mais sólida para compreender de que modo nosso cérebro realiza essas tarefas com tanta eficiência.
A malandragem definitiva dos educadores será conceber tecnologias que imitem e ajudem o cérebro no processo de aprendizagem.
Sugestões para leitura:

A.M. Owen e colaboradores (2010) Putting brain training to the test. Nature vol. 465: pp. 775-778.

D. Bavelier e colaboradores (2010) Children, wired: For better and for worse.Neuron, vol. 67: pp. 692-701.

C.S. Green e colaboradores (2010) Improved probabilistic inference as a general learning mechanism with action video games. Current Biology vol. 20: pp.1573-1579.

Roberto Lent
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Maior cérebro, maior inteligência?


Roberto Lent discute em sua coluna estudo norte-americano que mostra que o tamanho de diversas regiões e estruturas cerebrais está associado ao QI de um indivíduo, medido com base nos diferentes aspectos da cognição.

Por: Roberto Lent
Publicado em 26/11/2010 | Atualizado em 26/11/2010
Maior cérebro, maior inteligência?
Parte do mosaico ‘Despertar da inteligência da humanidade’, criado por Barry Faulkner no Rockefeller Center (Nova Iorque). A figura central simboliza o Pensamento, apoiado nos anjos Palavras Escritas e Palavras Faladas (foto: Wally Gobetz/ CC BY NC 2.0).
Todo mundo sabe intuitivamente o que é a inteligência. O difícil é defini-la com rigor científico. Será a capacidade de resolver problemas? Ou a percepção de emoções sutis dos outros? A habilidade matemática? Talento oratório? Ou a capacidade de compor música?
Todo mundo sabe intuitivamente o que é a inteligência. O difícil é defini-la com rigor científico
A variedade de habilidades humanas indica que a inteligência não é uma só, e que as pessoas podem ser excelentes em um aspecto e não tão boas em outros.
De fato, o psicólogo norte-americano Howard Gardner, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, considera que a inteligência é mesmo múltipla e propõe que seus tipos principais são: inteligência espacial, linguística, lógica-matemática, corporal, musical, interpessoal, intrapessoal, naturalística e existencial. Há evidências de que essas “especialidades” cognitivas sejam verdadeiras, mas não há garantias de que sejam as únicas. A lista pode aumentar.
A proposição de Gardner foi um avanço, pois permitiu valorizar mais os diferentes talentos humanos e estudá-los mais pormenorizadamente com instrumentos da psicologia e da neurociência. Além disso, serviu como um antídoto para o exagero da adoção do QI (quociente intelectual) como única medida da inteligência.
O QI foi inventado em 1912 pelo psicólogo alemão William Stern (1871-1938), com o objetivo de avaliar o desempenho escolar de crianças para que fossem desenvolvidas alternativas educacionais segundo a nota que recebiam. Modificado inúmeras vezes, o índice esteve envolvido em controvérsias candentes com conotações políticas, pois foi também utilizado para justificar políticas sociais baseadas na eugenia, que presumiam que a inteligência era determinada exclusivamente pela carga genética de cada indivíduo.
Fato é que o QI – modernizado com o emprego de ferramentas estatísticas mais apuradas – continua a ser utilizado amplamente para avaliar a “inteligência global” das pessoas, tomando-se a precaução de separar os indivíduos testados por grupos de idade, padrão social, escolaridade, cultura, nacionalidade e outros parâmetros.

Relacionando a inteligência ao cérebro

Levando em conta essas sutilezas na medida da inteligência, seria então possível buscar a relação entre ela e o cérebro?
O pensador
O cérebro determina a inteligência, que a sociedade modula: o problema é saber como uma coisa influencia a outra. A imagem mostra uma montagem feita pelo colunista a partir de reprodução da célebre obra ‘O pensador’, de Auguste Rodin.
Não há mais dúvida de que o cérebro representa a base material para a cognição, sendo, portanto, logicamente concebível buscar na sua estrutura e no seu funcionamento a natureza da inteligência.
Temos então um outro problema. Que aspectos da organização cerebral deveriam ou poderiam ser utilizados no estudo da determinação biológica dainteligência? Os primeiros neurocientistas, carentes de técnicas sofisticadas, empregaram medidas globais como o peso e o volume do encéfalo e suas grandes regiões. Depois, com as modernas técnicas de neuroimagem, tornou-se possível avaliar regiões mais restritas e até mesmo microrregiões que podiam chegar a poucos milímetros cúbicos.
Destacou-se recentemente nesse tipo de estudo o grupo dirigido por Arthur W. Toga, da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Estados Unidos). No laboratório de Toga, Eileen Luders e outros colaboradores realizaram uma série de estudos com o objetivo de correlacionar aspectos estruturais do cérebro humano com a inteligência dos sujeitos.
Como o grupo de indivíduos escolhidos foi sempre controlado quanto ao sexo, escolaridade e idade, sendo todos (homens e mulheres entre 16 e 44 anos de idade) norte-americanos educados no país, procurou-se assim minimizar os efeitos sociais que influenciariam as medidas de QI. Estas, por outro lado, abrangeram cerca de 10 subtestes, que cobriam os diversos aspectos da cognição.
Para os exames de imagem, eles empregaram medidas de ressonância magnética, que permitiram avaliar não apenas o volume total do encéfalo, mas também o volume total da substância cinzenta (onde se encontram os neurônios e as sinapses) e da substância branca (onde se encontram as fibras que intercomunicam as diferentes regiões).
Ainda mais especificamente, avaliaram a espessura do córtex cerebral em todas as suas microrregiões, bem como o seu grau de convolução (o conjunto das dobraduras da superfície), e mesmo a espessura do principal canal de fibras que interliga os hemisférios cerebrais.

A medida da inteligência

Ao analisar os resultados do experimento, a primeira observação que os pesquisadores fizeram é que não houve correlação negativa entre as medidas da inteligência e as do cérebro, só correlações positivas. Isso significa que quanto maior era a medida do cérebro, maior era também o QI do indivíduo.
Os resultados do experimento indicam que quanto maior é a medida do cérebro,maior é também o QI do indivíduo
Os dados mostraram que essas correlações positivas eram verdadeiras para o cérebro como um todo, mas também para a substância cinzenta, que realiza o processamento de informações, e a substância branca, encarregada da transferência de informações entre as regiões cerebrais.
Mais especificamente ainda, a espessura do córtex cerebral pôde ser medida para as diferentes áreas corticais e relacionada às medidas de QI. Encontrou-se correlação positiva nas áreas frontais e temporais, especialmente na região de confluência entre o lobo temporal e o lobo occipital. O grau de convolução apresentou padrão semelhante para a região têmporo-occipital do córtex cerebral.
Que teria então essa misteriosa região de tão importante para a inteligência? Sugeriu-se que aí estaria o polo de convergência (um hub, no jargão da computação) entre o fluxo de informações visuais analisado pelas regiões occipitais e os conceitos linguísticos mais elaborados, cujos “dicionários” ficariam no córtex temporal inferior.
Regiões cerebrais com tamanho associado ao QI
As imagens à esquerda mostram as regiões onde se encontrou correlação positiva entre a espessura do córtex cerebral e o QI das pessoas investigadas. A escala de cores mostra que as correlações foram quase sempre positivas. As imagens à direita mostram as regiões onde a correlação foi estatisticamente significativa: quanto menor o valor na escala de cores, maior a validade estatística do resultado. Imagem modificada de Luders e colaboradores (2009).
Os pesquisadores da Califórnia fizeram ainda avaliações morfométricas do corpo caloso, o enorme feixe com 200 milhões de fibras nervosas que interliga os hemisférios cerebrais. O corpo caloso é essencial para permitir que o nosso hemisfério esquerdo – responsável pelos aspectos racionais e lógicos da linguagem, bem como pelo processamento analítico, detalhado, das informações provenientes do mundo – converse com o hemisfério direito, mais voltado para os aspectos emocionais e holísticos da inteligência.
Pois bem, encontraram também correlação positiva entre a espessura desse grande feixe de fibras em certos locais (ou seja, mais fibras) e a inteligência do portador. Isso significa que um maior número de fibras calosas contribui para maior interatividade entre os hemisférios especialistas, o que agiliza o processamento mental.

Cautela na interpretação

Bem, é preciso certa cautela na valorização desses resultados. As correlações são muitas, e todas são positivas, sugerindo que quanto maior a dimensão do cérebro, do córtex ou de algumas de suas regiões, maior a inteligência do indivíduo.
É preciso certa cautela na valorização desses resultados. Correlações podem representar apenas uma coincidência no comportamento de duas variáveis
Mas correlações, a rigor, podem representar apenas uma coincidência no comportamento de duas variáveis, o que não significa que uma seja a causa da outra.  Bastaria um exemplo jocoso. Desde os anos 1950, aumentou a poluição em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nesse mesmo período aumentou a criminalidade. Uma correlação positiva, para a qual seria possível encontrar significância estatística. No entanto, ninguém considerará provável que a causa do aumento da criminalidade nas grandes cidades brasileiras seja a poluição...
A favor dos trabalhos do grupo de Toga, entretanto, está o grande número de variáveis estruturais do cérebro correlacionadas com as também numerosas medidas de QI. Além disso, outro conjunto forte e numeroso de estudos com pacientes neurológicos define uma relação de causa e efeito entre o cérebro e as capacidades cognitivas humanas.
De qualquer modo, o charme da ciência é justamente o valor superior das perguntas sobre as respostas: cada novo resultado é melhor quando gera mais perguntas!

Sugestões para leitura:
K.L. Narr e colaboradores (2007). Relationships between IQ and cortical gray matter thickness in healthy adults. Cerebral Cortex, vol. 17: pp. 2163-2171.
E. Luders e colaboradores (2008). Mapping the relationship of cortical convolution and intelligence: effects of gender. Cerebral Cortex, vol. 18: pp. 2019-2026.
E. Luders e colaboradores (2009). Neuroanatomical correlates of intelligence.Intelligence, vol. 37: pp. 156-163.
E. Luders e colaboradores (2010). The link between callosal thickness and intelligence in healthy children and adolescents. Neuroimage, publicação eletrônica em 13 de outubro.

Roberto Lent
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Prazer da música no cérebro



O gosto praticamente universal pela música acaba de ganhar uma explicação científica. Estudo mostra que, ao som de uma bela canção, o cérebro é inundado por dopamina, neurotransmissor ligado a sensações prazerosas.

Prazer da música no cérebro
Segundo estudo recente, a dopamina seria responsável pela apreciação musical, compartilhada por diversas culturas. Esse neurotransmissor, ligado a sensações prazerosas, inunda o cérebro ao som de uma boa melodia. (foto: Jeffrey Chen/ Sxc.hu)
Os amantes da música sabem, por experiência própria, que o prazer de escutar essas vibrações mecânicas é um dos mais gratificantes que se podem experimentar. Agora, estudo publicado na Nature Neuroscience explica tanto o porquê dessa sensação quanto a razão de a música ser apreciada nas mais distintas sociedades humanas.
O segredo, segundo o estudo, está no fato de o cérebro se inundar com dopamina, um dos vários neurotransmissores que os neurônios usam para enviar sinais químicos uns para os outros. A dopamina está ligada àquele prazer que se tem com um bom prato de comida ou com a surpresa de ganhar grandes somas de dinheiro. 
O experimento mediu, com exames de imagens, os níveis de dopamina em cérebro de voluntários em resposta àquele ‘arrepio’ prazeroso causado pela música que, para muitos, vem da alma e eletriza o corpo. Essa sensação muda a condução elétrica da pele, os batimentos cardíacos e a taxa de respiração, por exemplo. 
Quanto maior a sensação de prazer ao som de uma música, mais alta é a quantidade de dopamina no cérebro
Os pesquisadores mostraram que, quanto maior essa sensação, mais alta é a quantidade do neurotransmissor no cérebro. Outra conclusão do estudo: a quantidade de dopamina no cérebro é maior quando o ouvinte classifica a música como agradável, em comparação com uma canção ‘neutra’. 
Os autores mostraram também que mesmo a antecipação do prazer de ouvir uma boa música já é suficiente para banhar o cérebro com mais dopamina. Para os autores, uma forma de ler esses resultados é que eles explicam por que a música é tão apreciada pelas mais diversas culturas.

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

Dance com os neurônios



Vídeo clipe num laboratório de células-tronco. Assista e conheça melhor o dia a dia de um biólogo.
Como já falamos aqui no Bússola, tivemos o prazer de passar um dia quase inteiro noLaboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) do Instituto de Ciências Biomédicas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O LaNCE desenvolve estudos com neurônios reprogramados a partir de células da pele de pessoas com doenças mentais e pesquisa novas formas de cultivar células-tronco embrionárias visando sua aplicação clínica.
O chefe do laboratório é o nosso colunista Stevens Rehen
Entre uma conversa com Stevens lá, uma passeada pela universidade acolá, conseguimos entrar onde a ação realmente acontece. Ou seja, no lugar em que, de fato, as células são reprogramadas e se tornam neurônios.
Foi bastante divertida a visita. Por estarmos com uma câmera portátil, deu para filmar de perto o trabalho minucioso dos cientistas – que exibem gestos e movimentos similares aos de um cirurgião, tamanha é a habilidade com que manuseiam os instrumentos.
Ficamos felizes em compartilhar abaixo o despretensioso videoclipe que montamoscom as melhores imagens capitadas.
Mais uma vez, fica o agradecimento ao Stevens por ter aberto a porta de seu laboratório.
Divirtam-se! 


Amor de neurônio



Curta-metragem é premiado por contar a relação íntima entre célula nervosa e droga.
Fuma cigarros e bebe muito. Lamenta a ausência "dela". Digita freneticamente em uma máquina de escrever: "Ela, ela, ela". 
'Ela' não é uma mulher. Quem fuma e bebe também não é uma pessoa. Na verdade, a cena acima é a representação cinematográfica da relação entre neurônio e droga.
Essa foi a ideia vencedora da disputa promovida pelo Instituto de Neurociência Cognitiva UCL, que premiou o melhor curta-metragem sobre cérebro no concursoBrains on film (Cérebros em filme, em português). 
O vencedor, divulgado ontem (4/5) pelo jornal britânico Guardian, tem um sugestivo título: Love story (História de amor).
Um homem angustiado representa o neurônio vidrado em uma droga. A droga é uma bela mulher, que surge, justamente, quando o homem bebe e fuma.
Ele (neurônio) explica: a mulher (droga) libera dopamina, um neurotransmissor capazde regular o sistema de recompensas. Dá prazer, relaxamento e felicidade. Só há um problema: quanto mais se tem, mais se quer. Em suma: um amor impossível.

Veja abaixo, em inglês, Love story


Thiago CameloCiência Hoje On-line

Nó no cérebro



Instituição escolhe as melhores ilusões de ótica criadas no ano passado. Imagens mostram que não se deve acreditar em tudo que vê.
Nó no cérebro
Ilusão de ótica premiada em concurso. O que você vê? (foto: divulgação/ Gianni Sarcone, Courtney Smith & Marie-Jo Waeber)
A imagem aí de cima é daquelas que confundem o cérebro. Confunde mesmo, pois é uma ilusão de ótica. A imensa maioria das pessoas vê de cara um rosto desfocado nocentro. Mas é possível notar, com bastante atenção, outra imagem: dois rostos – de um homem e de uma mulher – próximos, pré-beijo.
Essa imagem está entre as dez escolhidas pelo concurso anual de ilusão de ótica promovido pela The Neural Correlate Society, instituição que divulga iniciativas de divulgação da neurociência.
As outras ilusões do ranking tendem a brincar com cores e movimentos de desenhos,como pontos ou traços coloridos. A ideia central é mostrar que o nosso cérebro, diante de determinadas imagens, pode ser 'enganado', induzido a ver o que nem sempre é 'a verdade' das figuras expostas.
Por exemplo: a dubiedade gerada pela imagem que abre este texto tem uma explicação científica. Segundo os criadores da ilusão, o ornamento que serve como moldura para o rosto diz para o cérebro 'juntar' as imagens, de modo a nos fazer reconhecer apenas uma face.
Uma vez detectados os dois rostos, nossa consciência visual tende a flutuar pelas duas imagens, reconhecendo a figura como algo contraditório, ambíguo.
Veja abaixo a ilusão de ótica que ganhou o primeiro lugar. Centre-se na bola branca, nomeio da animação.  Acredite, as bolas a sua volta não param de piscar em momento algum. No entanto, o movimento que elas passam a fazer num determinado instante leva a essa interpretação equivocada.
A ilusão de ótica campeã é conhecida como 'cegueira de mudança' (change blindness, em inglês). Seus autores acreditam que o fenômeno ocorre porque áreas específicas do cérebro monitoram locais diferentes no nosso campo de visão. Quando um objeto se move rapidamente, detectores locais podem não ter tempo de registrar mudanças súbitas nesse mesmo objeto.

No caso específico da imagem vencedora, o truque está na sensação criada pelo movimento repentino das bolas: enquanto se movem, elas piscam e mudam de cor, mas nosso cérebro não registra a ação em função da velocidade do deslocamento das bolas.
Veja mais ilusões de ótica premiadas pelo concurso.

Um atlas público do cérebro



Um atlas público do cérebro
atlas permite visualizar o cérebro em três dimensões e fazer aproximações que chegam ao nível celular. (imagem: Observatório do Cérebro)
Imagine conhecer um cérebro por dentro e navegar pelas reentrâncias desse complexo órgão, podendo ampliar detalhes e estudar áreas específicas de seu interesse. Não, não é preciso imaginar; basta entrar na página virtual do Observatório do Cérebro, da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA), para ter uma prévia desse atlascerebral on-line, que estará disponível gratuitamente para o público a partir de setembro deste ano.
cérebro que poderá ser visualizado é o do norte-americano Henry Gustav Molaison (1926-2008), que se submeteu no verão de 1953 a uma cirurgia para tentar reduzir suas sucessivas crises de epilepsia. A intervenção melhorou as convulsões, mas provocouuma lesão no hipocampo que afetou definitivamente sua memória, ao ponto de ele não lembrar de nada de sua vida pregressa, nem mesmo dos pequenos atos que acabavam de acontecer. O caso de Henry é um clássico na história da neurologia.
Para construir o atlas cerebral, o órgão foi cortado em 240 finas fatias, arquivadas em lâminas no Observatório do Cérebro
Para construir o atlas cerebral, o órgão foi cortado em 240 finas fatias, arquivadas em lâminas no Observatório do Cérebro. “O processo requer muito cuidado, como otrabalho de um relojoeiro”, conta o neuroanatomista ítalo-americano Jacopo Annese, diretor do observatório. “Seria pouco prático enviar as lâminas para estudo de outros grupos de pesquisa em todo o mundo; por isso, tivemos a ideia de digitalizar a informação e disponibilizar esses dados. Mas é muito importante conservarmos os cortes originais, porque, no futuro, a resolução poderá ser ainda maior, levando a novas descobertas.”
Foram feitas imagens de ressonância magnética e de microscopia de cada corte em diferentes níveis de resolução, de modo que, quem for navegar pela página poderá visualizar o cérebro em três dimensões e fazer aproximações com o mouse, concentrando-se em uma área específica, para estudar o órgão em nível anatômico ou mesmo celular.

Veja abaixo uma demonstração em vídeo de como navegar no atlas


Em busca de doadores

O observatório agora está em busca de novos cérebros para estudo. “Muitas pessoas jádoaram seus cérebros”, conta Annese. “O importante é que estamos fazendo imagens desses cérebros em ação – os pacientes se submetem a ressonâncias magnéticas a cada seis meses, de modo que podemos acompanhar possíveis mudanças que ocorram em longo prazo, comparando essas imagens. E, quando eles morrerem, seuscérebros poderão ser estudados ainda mais profundamente.”
Segundo o diretor do observatório, as comparações anatômicas ou em nível celular poderão ajudar a entender o que causou determinado dano ou lesão. “Isso é importante, sobretudo, em doenças degenerativas, como as de Alzheimer e Parkinson, porque, a partir dessa análise, talvez possamos identificar que fatores estão envolvidos no seu desenvolvimento”, sugere.
As comparações anatômicas ou em nível celular poderão ajudar a entender o que causou determinado dano cerebral
“Será possível ainda comparar cérebros saudáveis de irmãos e compreender, por exemplo, por que um é capaz de pintar bem e o outro não”, acrescenta. “É importante lembrar que as interconexões e as vias que océrebro usa para fazer essas ligações são diferentes em cada pessoa, e os vários mapas cerebrais poderão nos ajudar a compreender melhor essas diferenças.”
O valor gasto desde que o cérebro é entregue no observatório até o fim de todo o processamento de imagens e dados é de aproximadamente 14 mil dólares. Alguns dosdoadores de cérebros também colaboram com recursos para financiar as pesquisas.
Embora não haja dúvidas da relevância de essa nova ferramenta estar disponível não apenas para a comunidade científica como também para o público, Annese adverte que muitas das informações registradas hoje talvez só sejam importantes daqui a 100 anos. “O cérebro é como um livro e nós somos os editores desse livro”, resume.

Alicia Ivanissevich
*

Ciência Hoje/ RJ

* A jornalista viajou a San Diego a convite do Instituto das Américas para participar do 9º Workshop Jack F. Ealy de Jornalismo Científico
Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
A lesão que afetou definitivamente a memória do norte-americano Henry Gustav Molaison foi no hipocampo e não no hipotálamo, como havíamos escrito. (19/09/2012)